crueldade

É difícil o ato de querer alguma coisa.
Eu descobri isso, já era uma mocinha… quando alguns desejos que eu tinha feito a estrelas se realizaram. (o desejo é sempre para a primeira estrela que aparece pra você, no céu). Eu pedia muita coisa e não elaborava bem os pedidos. Era imatura objetiva. E eu fazia os desejos assim, porque achava que era aquilo a coisa que mais importava e que eu mais precisava.
Alguns anos depois esses desejos foram se realizando, desconectados um do outro, sem significar o que teria significado quando eu pedi (ainda bem). E também aconteceram fora daquele contexto de antes, que parecia tão apropriado pra tudo que eu tinha pensado. E eu me perguntei: “Tá, mas e agora?” Eu não sabia o que fazer com os desejos realizados, mas era o que tinha. Então, sem saber o que fazer, eu não fiz nada mesmo… Apesar das circunstâncias, só aproveitei. E depois, claro, aguentei as consequências e tenho aguentado até então.
Eu não marquei esse dia em calendário, mas lembro como o dia que descobri que as estrelas eram cruéis (e a Lua também).

Ah, mentira. Elas não são cruéis, são só pontinhos brilhantes que armazenam desejos, dos mais inconsequentes aos mais necessários e sóbrios (isso é verdade).
Na verdade, cruel é a gente, que não pensa duas vezes antes de fazer um pedido e depois precisa lidar com as consequências.
Desde então eu não me lembro de ter feito mais pedidos a estrelas. Eu tenho muito medo de fazer pedidos a estrelas.

“Tenha cuidado com o que quer. Não pelo fato de conseguir, mas pelo fato de não querer mais depois de conseguir. ” professor David Gale (Kevin Spacey), em A vida de David Gale.