beira-mar

Ele queria me levar para um lugar que eu não queria ir. Eu não devia, mas ele tinha uma força estranha e de alguma forma era sedutor. E eu? Eu era fraca (e nem sabia disso até então)
Ele era o nada dentro da concha vazia no criado-mudo da sala, que ela ouvia e fantasiava quando criança. Era o vácuo, pregando uma peça. Era o som que me tranquilizava e me fazia sonhar, embora quase não caracterizasse som algum. Era bom ouvi-lo, porque toda vez isso fazia com que ela ficasse mais calma e otimista. 
Por isso queria ir. Sempre que se encontravam, conversavam. Ela mais ouvia que falava, porque ele tinha muito a dizer. Tinha também coisas simples para ensinar. Mesmo assim não queria ir, tinha medo de entregar-se ao acaso, à força da correnteza daquilo que até então chamou-se destino.
Não dava para saber se seria bom, a não ser que corresse o risco. O risco de se perder, o risco de não querer mais voltar, o risco de não dar pé, se fosse longe demais. Havia também o risco de o ar faltar ou de ser muito frio.
E o principal: o risco de não conseguir mais voltar. Esse era o mais temido. Era, também e por isso, o mais necessário dos riscos nesse momento da vida: uma força que a obrigasse a ir, mesmo sem que ela quisesse.
A medida que se aproximava dela, seus pés afundavam levemente e, sem que percebesse, ficava cada vez mais presa ao chão. Queria permanecer ali, de olhos fechados. Sem ver ninguém e sem ser vista. Apenas sentindo e sendo levada.

Percebeu que podia; o mar se encarregou do resto. 
E hoje eu não sei mais.

5 comentários sobre “beira-mar

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s