sempre

Sentia necessidade de falar para alguém, mas sempre que havia um destinatário, involuntariamente as palavras se reorganizavam e aquilo que queria dizer, se perdia. Precisava escrever para alguém. Precisava também escrever em primeira pessoa, mas se o fizesse, aí mesmo é que o importante se perdia. 
Tinha medo da superexposição que era escrever “eu”. Quase nunca escrevia. Quando era ela, dizia muito mais do que seu eu. Seja ela quem fosse: uma saudade, uma dor, uma alegria. Uma pessoa qualquer. É difícil. Mesmo que ela não fosse eu, de fato, representava muito mais. E às vezes ela não representava nada. Esse mistério era o prazer, penso que também para quem lia. Para ela (mim), era a segurança de se esconder atrás de um pronome. 
Ela podia fazer tudo. Eu não. Podia dizer tudo, porque seria, para todos os efeitos, apenas uma descrição de algo que uma terceira pessoa viveu. Mas ela não era tão forte quanto eu, porque ela era distante. Mesmo partindo de dentro, era distante.

Precisava aprender a lidar com isso, porque o que precisa ser dito ninguém diz, nem ela, nem eu – nem mesmo pra mim. Porque eu mesma sou uma terceira pessoa quando leio o que acabou de ser escrito – então sempre vai haver uma terceira pessoa.

Um comentário sobre “sempre

  1. Mostrei meu blog para uma amiga e ela comentou assim: “Vc escreve bastante em terceira pessoa, não é mesmo?!” E minha resposta foi exatamente esse texto: “Não quero me expor. Parece que falando “ela” não sou eu quem está sentindo…”

    Beijo enorme em vc, menina.

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