cócegas



pensei ter ido embora então fechei os olhos para um cochilo rápido. 

foi então que senti uma coisinha pelo pescoço e instintivamente passei a mão, nem leve nem forte, mas firme, como se me limpasse de qualquer coisa incomodando meu sono. em seguida percebi a indelicadeza que acabava de cometer. distraída, como sempre fazemos, talvez eu tivesse destruído aquilo que há poucos minutos me entretia e fascinava, e que de certa forma me fazia acreditar que algo bom poderia acontecer, e que considerei apenas sorte mesmo – como minha tia costumava dizer. 
aquele inseto miudinho, quase invisível, que só vê mesmo quem sente. aquele serelepe que saltita toda vez que você tenta pegá-lo e que, se você perde de vista por um segundo, quando olha novamente já sumiu. assim perdi minha sorte de vista várias vezes, mas consegui recuperá-la. tão ligeira.
pensei que a tivesse matado, afinal um simples toque poderia destruir toda a sua estrutura frágil e verde. encontrei-a no meu colo, parecia sem forças. peguei com o dedo e esperei que ela reagisse. novamente me distraí. novamente perdi minha sorte de vista, mas dessa vez eu precisava ir.
olhei cuidadosa e me levantei delicadamente da cadeira. deixei a minha sorte livre. talvez ela até ainda esteja comigo.

blues antigo

independente do que eu seja, comecei esses dias a pensar no que queria ser. e fui vendo que não era nada do que um dia eu quis ser, mesmo porque eu sempre mudo de querer. em meses quero ser várias coisas diferentes, mas já percebi que me atrai mais tudo que exige da pessoa certo jeito e malícia pra ser. por exemplo, para ser jardineiro não basta saber das coisas da terra e da biologia, é preciso muita sensibilidade. e uma sensibilidade única, que nenhuma outra pessoa tenha (mas podem existir várias delas). e penso a mesma coisa para lidar com cozinha. e carece essa mesma sensibilidade para lidar com animais e com crianças. para a dança, para toda arte, e, claro, a mesminha para lidar com a escrita. com criações, em geral. há uma terceira “pessoa” a ser tocada, que pode ser uma reles roseira. mas há. sempre há. e não basta ser sensível, é preciso uma espécie de sensibilidade adaptativa, para todas as pessoas que surgirem além de você, e para o seu próprio ser, quando você não reconhecê-lo.