ser

“ninguém perguntou se queríamos nascer. 
nascemos por decisão e escolha de terceiros.
acabamos por existir, mesmo sem saber como fazer isso. 
e precisamos, sobretudo, ser.”

pensou essas coisas enquanto voltava pra casa, na chuva. mas podia não ser isso. e vendo cada gota de chuva deixando de ser gota de chuva, pensou também na efemeridade das coisas. concluiu que ninguém, além de nós mesmos, podemos determinar o que passou e o que não passou. o tempo passa – aliás, o tempo se passa, mas não passa as coisas. não necessariamente. -concluiu que a gota de chuva não havia deixado de ser uma gota de chuva apenas porque se juntou a outras gotas de chuvas no chão, empoçadas. também não deixou de ser porque evaporou. ela não passou. não para ela. e começou a perceber que poderia fazer passar o que quisesse, desde que se concentrasse bastante. então se concentrou. ser é mais importante do que existir.

foto // anna f. horta



















mais vida

foto // anna f. horta

andei tomando minhas providências: já preparei a terra, com um pouco de húmus e de pó de xaxim. pó de xaxim é nutriente, húmus (de minhoca) é pr’um brotamento e crescimento mais vigorosos. amanhã planto minha primeira resolução e sigo com força de vontade para regar e vigiar. sigo cuidadosa para não esquecer que isso deve me fazer bem, me colorir e me fazer amar mais, e não o contrário. sigo com todo amor que sempre tive em mim, para ver brotar a força que a semente precisa pra florescer. e sigo com confiança, porque nada vinga sem isso. e que o perfume chegue aonde deve chegar. eu não vou fazer quase nada, vou apenas plantar. a intenção é minha, o cuidado com a terra será meu, o amor, sobretudo, será nosso. a decisão de nascer é sua, natureza. mas o mais importante foi feito, e na verdade já nasceu e cresce, cada vez mais.

coragem

Ter as sementes, mas não ter coragem de plantá-las. Acontece às vezes. Ter possibilidades, mas por medo de dar errado, sequer tentar. E aconteceu comigo. Ganhei sementes de flores, mas por nunca ter plantado, estou com medo de arriscar. E se não nascer nada? E se eu criar expectativas e esperar, dia após dia,  um broto surgir e ele nunca vir? E se as sementes não vingarem? Se não nascer nada, o que eu vou fazer? Eu não saberia lidar com esse vazio e um vaso cheio de terra fértil e sementes mortas me amorteceria também. Apostaria tanto nessas florezinhas, que elas nascerem não significaria apenas um plantio que deu certo. Significaria o nascimento de tantas outras coisas que já espero também há muito tempo, em mim, principalmente. Intensidade demais para elas simplesmente não nascerem. De qualquer forma estou criando coragem, porque acontece também de o tempo passar. E se as sementes envelhecerem, não germinam mais. E isso, sim, seria realmente triste: a chance se perder por negligência.