reciclar

voltei.
fiz o mesmo ritual que vinha fazendo desde que me mudei para são paulo: cheguei em minas, entrei no quarto e, imediatamente, antes de fazer qualquer outra coisa, fui em direção ao meu gaveteiro – abri gaveta por gaveta na esperança de encontrar algo que em algum momento da minha vida eu julguei desnecessário. queria reciclar algo. dentro de mim.
fiz a mesma coisa com o meu guarda-roupas – só percebi que havia se tornado um ritual dessa vez, mas sempre que eu voltava, tirava todas as gavetas, revirava, folheava cadernos, livros. descobria bilhetes antigos. abria pastas, estojos. rasgava folhas de cadernos para que eles ficassem em branco, como se fossem novos.
acontece que, da última vez em que estive lá, decidi organizar essas gavetas e joguei várias sacolas cheias de papel e coisas velhas, porque achei inúteis. talvez nem fossem. mas naquele momento eram e eu me desfiz delas. Talvez hoje eu não achasse, mas foi importante que eu abandonasse o que não prestava mais, logo que percebi que parou de prestar. Foram anos acumulando papéis, até que decidi arrumar isso e jogar algumas coisas fora.
abri, depois de meses, novamente todas as gavetas, caixas, portas do guarda roupa. não consegui recuperar quase nada. tudo que estava lá eu já havia escolhido na última vez que arrumei e eleito como “o que era importante ficar dessa vez”. mal olhei as gavetas dessa vez, eu tinha certeza que não encontraria nada. queria reciclar algo. 
queria reciclar lembranças.

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