breve relato sobre o mar

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Desde pequena sempre gostei de água, de mergulhar, de nadar no fundo, onde não dava pé. Talvez pelo tom desafiador que isso causava, talvez pelo tom libertador. A paixão por águas fundas sempre preocupou minha mãe, mas eu sabia nadar desde pequena. Fiz natação, ganhei medalhas, me aprontei pra mergulhar pra sempre nas águas mais fundas que eu pudesse encontrar pela frente. E eu mal sabia que por toda minha vida mergulharia – nunca de olhos fechados, mesmo em águas salgadas.

Quando comecei a entender um pouco mais sobre como o mar e a natureza seguiam, passei a observar todas as intemperanças implicadas. Comecei a entender ainda nova que o mar tem temperamento, que pode estar calmo ou bravo, que pode estar de ressaca. Em certos momentos a maré estava cheia e o mar bravo, noutros, tudo tão raso que dava pra ver areais se formando. Isso era indispensável para que eu soubesse a (minha) hora certa de encontrá-lo. E sempre vou o mais fundo que posso, sossego só quando não alcanço mais os pés no chão. Não é atrevimento, tampouco coragem, porque não estou enfrentando medo algum. Também não é ingenuidade, pois sei bem o respeito que o mar exige. É entrega.

Destemida é um adjetivo que cabe mais do que corajosa. Não vejo por que ter medo, então eu vou e mergulho. Talvez se eu sentisse medo, nem fosse. Mas o encantamento é tamanho, que mergulho quando uma onda enorme se forma e quebra; sinto a espuma forte quebrando nos meus pés, vibrando, enquanto todo meu corpo está submerso, e me fazendo tremer completamente. Às vezes eu sinto que a onda não vai passar nunca, que vou me afogar, mas tenho pulmões enormes, já me foi dito, então eu me concentro e sigo.

Às vezes me distraio, de costas, e quase sou levada. Engolir água faz parte. Esses momentos também me fascinam.

 

coincidência

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Coincidir significa incidir/acontecer ao mesmo tempo. Duas coisas que incidem ao mesmo tempo e geram, por exemplo, o encontro entre duas pessoas ou faz com que ambas pensem uma na outra, simultaneamente, não deixa de ser uma coincidência.

O engano que vejo é que alguém atribuiu ao significado dessa palavra um peso de despretensão e casualidade, que acabou tirando dela qualquer força própria ou possibilidade mágica que pudesse determinar que algumas coisas, justamente por estarem incidindo ao mesmo tempo, por estarem se encontrando, por estarem em uma mesma frequência, num mesmo minuto e momento, não por acaso, estão clara e indiscutivelmente sintonizadas.