o mar que é o outro

Uma vez, quando eu era criança, em um desses veraneios felizes na casa da minha tia em Minas Gerais, mergulhei rumo ao fundo da piscina do clube e, de tão forte, bati os dois joelhos no chão. Repeti o feito depois de grande e bati a testa. Há pouco tempo fiz a mesma coisa no mar e ralei os joelhos na areia. No último caso, não foi muito culpa minha, porque em alguns lugares fica fundo e raso toda hora e nem sempre a gente já aprendeu isso pra evitar. É verdade, não são metáforas. E lendo assim parece que não aprendo, né?

A ironia é que aprendi justamente quando virou metáfora e é por isso que escrevo aqui, só pra dizer que: cuidado ao mergulharem.

Cuidado com a intensidade do mergulho.

Mantenham os olhos abertos, mesmo se o olho arder. Cuidado para se certificar de que são, de fato, águas profundas. Cuidado com águas rasas que parecem fundas. Cuidado com as profundas e turvas demais. Cuidado com o balanço encantador das águas que, de repente, te tiram o fundo dos pés e, no momento seguinte, quando você mergulhou, ficam rasas novamente.

Saiba que não são ondas instáveis. Esse movimento vai se repetir pra sempre. Em alguns momentos, quando for raso, vai dar tédio e em alguns momentos, quando ficar fundo de repente, você vai acabar engolindo água. E quando vai ser bom? Não vai ser.

Não mergulhem de cabeça sem saber a profundidade de onde estão entrando e evitem mergulhar nesses lugares onde fica fundo e raso toda hora e rápido demais.
Enfim , tenhamos cuidado.

perceber é preciso, saber não é preciso

houve um dia em que percebi uma coisa óbvia.

depois de passar cerca de trinta minutos sentada na janela diante de um mesmo movimento das nuvens. eu estava gravando do meu celular e notei que no vídeo, além das nuvens que se moviam bem rapidamente – e pra mim surpreendentemente rápido naquela manhã de domingo em que até eu havia amanhecido calma, até as maritacas que sempre estavam ouriçadas – além delas, o sol também mudava de lugar, só que bem mais sutilmente; obviamente porque nós é que estamos nos movimentando enquanto planeta.

Essa coisa de referencial é tão louca e poética. Perceber o óbvio também. Aliás o óbvio dito só funciona se for dito pela própria coisa óbvia; pessoas dizendo coisas óbvias não costuma funcionar, porque pula-se a etapa da percepção própria. Quando alguém te diz algo óbvio, você tem dificuldade de aceitar que aquilo lhe seja dito porque lhe foi tirado o momento da percepção do óbvio. Mas pra isso é preciso desacelerar. É pelo menos um minuto de pausa, de contemplação, para olhar sem compromisso aquilo que você acha que já conhece, como eu fiz com o céu e o sol.

Perceber é ouvir, do mesmo jeito, mas só que ouve-se a coisa propriamente, é como se fosse um telefone sem fio e quando você percebe, você é a primeira pessoa a receber a mensagem.

quando a maré baixa

pegadasnão acho que tenha sido coincidência que depois de conhecer uma pessoa que faz eu me sentir tão tranquila e serena, meu primeiro encontro com o mar tenha sido igualmente tranquilo e sereno. fazia muito tempo eu só o encontrava bravo. e eu que sempre falei que gosto de maré cheia, percebi que o mar calmo também pode ser profundo a medida que a gente caminha. a medida que a gente segue.

a profundidade existe.

o tipo de obviedade com que a gente precisa ser confrontado pra sentir (o que vai muito além de saber). o mar é profundo e perene, isso independente do seu temperamento. e lá, onde é possível mergulhar, bem mais distante da areia, nadar é muito mais prazeroso, porque além de ser calmo, é possível.

o risco existe, sempre. maré baixa não significa mar seguro e se afastar da areia pode ser muito perigoso. mas eu sempre encarei o risco. não por ser corajosa, porque não enfrento medo algum. e sim por ser destemida, porque quase sempre não vejo motivo pra ter medo.