quando a maré baixa

pegadasnão acho que tenha sido coincidência que depois de conhecer uma pessoa que faz eu me sentir tão tranquila e serena, meu primeiro encontro com o mar tenha sido igualmente tranquilo e sereno. fazia muito tempo eu só o encontrava bravo. e eu que sempre falei que gosto de maré cheia, percebi que o mar calmo também pode ser profundo a medida que a gente caminha. a medida que a gente segue.

a profundidade existe.

o tipo de obviedade com que a gente precisa ser confrontado pra sentir (o que vai muito além de saber). o mar é profundo e perene, isso independente do seu temperamento. e lá, onde é possível mergulhar, bem mais distante da areia, nadar é muito mais prazeroso, porque além de ser calmo, é possível.

o risco existe, sempre. maré baixa não significa mar seguro e se afastar da areia pode ser muito perigoso. mas eu sempre encarei o risco. não por ser corajosa, porque não enfrento medo algum. e sim por ser destemida, porque quase sempre não vejo motivo pra ter medo.

um pouco mais sobre o perecível

foto // anna f. horta

Reparou na fruteira quase vazia. tirada do pé cruelmente antes do momento, ela estava verde e dura, e padecia. rapidamente foi tomada por uma ansiedade desesperadora de maturidade. tão fora de hora a fizeram existir como algo a ser consumido e agora ela estava ali. reparava diariamente se havia ali algum sinal de amadurecimento. nada, apenas a ideia suspensa de vir a existir, a vontade de que pudesse nascer, de fato, a fim de ser consumada. – consumida. ela seria devorada e parecia saber disso. e todos os dias – religiosamente – a mulher olhava, buscava, e o processo se arrastava, mas fluía. teve paciência.
houve um dia porém em que, apressada, corrida e ansiosa por outros amadurecimentos e nascimentos, se esqueceu de olhar. e vários dias se passaram, e a mulher agora se ocupava com outras expectativas, mais novas e, portanto, mais sedutoras. quando se lembrou, ela já estava completamente podre, inutilizada e rodeada de moscas. intocada. impossível salvar uma parte sequer dela. basta nos distrairmos para acontecer o que tanto esperamos. estragou, como um doce quando passa do ponto e é preciso recomeçar tudo de novo. e porque aproveitar parte de fruta podre não dá certo. aquilo que seria a delícia dela e de quem provasse a receita estava agora em um caminhão, misturado a várias outras inspirações que foram castigadas pela pressa e distração de uma mulher ou homem qualquer.

se decompôs. acontece.

  

sobre o perecível

foto // anna f. horta

O nunca é tão eterno quanto o sempre; uma eternidade aparentemente inalcansável por nós, que somos naturalmente volúveis. E nunca saberemos se um dia ela será alcançada. Um dia morremos e as coisas acabam. (talvez não acabem)

Se fôssemos imortais talvez conseguíssemos “nunca” fazer algo, ou conseguiríamos amar alguém “pra sempre”. (talvez sejamos imortais) 
Acontece que não nos foi dada a eternidade, pelo menos não que eu saiba. Pelo menos não aqui, nisso que chamamos de existência terrena. E também não sabemos o que acontece realmente depois que morremos, mas você acredita no que quiser. Não sabemos se deixamos de existir. Não sabemos nada sobre a eternidade das coisas. Deduzimos apenas.
E, embora algumas pessoas acreditem nisso, não vivemos nada dessa eternidade também. E somos lamentavelmente românticos o suficiente para acreditar que amamos e somos amados para sempre. Nem sabemos o que é “sempre”. Você sabe?
Tudo acaba. Se transforma, na verdade, mas antes acaba. Se você faz um suco de laranja, a laranja acaba, mas você agora tem suco.
Nós não alcançamos o sempre nem o nunca; não somos capazes; acabamos antes. Apodrecemos, nos tornamos outra coisa, viramos suco de laranja. Então pare de exigir eternidade das pessoas; e pare de prometer também.

  

cíclica

Para ler em voz alta ouvindo Pra passear – Letuce
foto // anna f. horta
às vezes você esbarra em mim sem querer e eu respingo no asfalto escaldante de uma cidade empoeirada de quarenta graus celsius. dramática, parte de mim evapora quente. a parte que ficou no copo você bebe, e a outra parte que caiu continua líquida, escapando por debaixo da porta, encontrando uma terra seca, sedenta de mim. então penetro. e depois floresço algo. sem esquecer a outra parte, que evaporou sem deixar, porém, de ser eu. ela flutua, invisível, muda. esbarra em todas as partículas de todas as pessoas e coisas da avenida, mas ninguém sabe, nem sente. de tanto esbarrar, essa parte da minha existência começa a pesar e então eu chovo. desajeitadamente como um primeiro voo de um pássaro, eu me precipito e caio. vou de encontro desesperado e esperançado com a minha outra metade que agora fez brotar e alimenta.
antes mesmo de encontrá-la, me impedem -quem? volto a ser uma possibilidade de chuva. sob uma tensão absurda de precisar me encontrar, esfrio tanto, que meu coração quase para. dessa vez sublimo e vou com tanta força que destruo o que a outra parte ajudou a nascer. depois me liquefaço e recomeço tudo de novo.
… enquanto isso você transpira. e lá estou eu, salgando seu lábio.

seis minutos

Para ler ouvindo 6 minutos – Otto
Existe uma voz que chora forte toda vez que canta, mas existe uma música que mexe mais comigo. Não porque eu me identifique ou sinta como ela é cantada, não porque eu tenha vivido algo parecido, porque eu não vivi, não me identifico. Acontece que sei, por pura dedução quase óbvia e, também, por alguma  sensibilidade, qual o contexto em que ela foi escrita. Toda vez que ela é cantada, toda vez que escuto a mesma história, com tantos berros e uma guitarra que chora desesperada a música inteira, eu choro com ela. Eu sinto como se fosse eu… tendo vivido tudo. Dói; me arrepio toda e morro um pouquinho a cada vez.
Me transfiro, imagino como seria ter uma filha e, em algum momento, ter ouvido meu amor falar sobre “uma casa pequena, com uma varanda”, chamando a Maria pra jantar, num pernoite em um quarto de hotel. Penso como seria ter vivido isso, com toda a intensidade que tenho certeza que houve, e hoje, alguns anos depois de nascida Maria, simplesmente não estarmos mais juntos, por algum motivo que talvez não fosse claro nem mesmo pra nós. Tantos planos, momentos únicos vividos e por viver, uma intensidade inexplicável que parecia fazer tudo ser inevitavelmente o que chamamos de eterno, e talvez apenas alguns minutos – tempo suficiente para uma vida, para uma canção tão intensa.
… instantes acabam.
Isso é pra morrer.

foto // josé de holanda




chover

foto // anna f. horta

me ensina a chover e molhar e florescer todo esse amor que sabemos que já existe. ele não para de crescer e está ficando tão mal educado. estamos deixando ele fazer o que quer de nós, porque vivemos por ele. estamos cometendo falhas porque sabemos que amanhã nasce de novo. estamos esquecendo que às vezes dói deixar que o amor faça o que quiser porque ele, sobretudo, existe. o amor existe e basta, mas não conte a ninguém isso. e ninguém deveria saber disso.

me ensina a preparar a terra para o nascimento, porque todo dia nascemos. todo dia o amor nasce mas às vezes é difícil.
me ensina como tirar mudinhas e replantá-las sem dor? me ensina a cultivar um jardim apenas com flores de pétalas capiturales e de mato e calçada, sem que essas sejam daninhas para aquelas? quero um jardim com margaridas, girassóis, serralhinhas, dentes-de-leão e aquelas tantas outras que nunca vou saber o nome e que são pragas. quero também as daninhas. quero que todas coexistam.
– não, essas não.
– …
– compra um remédio pr’as ervas-daninhas, porque apesar de serem vivas, e terem sua vida, suas cores e seus amores, vivem em prol de outras vidas e sugam nutrientes, roubam. isso não é certo.
– mas então por isso devemos matá-las?
– devemos.

cheiro

inspiração é um movimento feito para dentro, primeiramente. é uma coisa que precisa ser. é uma introdução intensa e imensa daquilo que há de mais importante para viver. é uma coisa que vem com cheiro -nem sempre bom- e penetra em cada canto do corpo. (depois sai).
pulsa. vai com o sangue para onde ele é necessário. é vida, é condição para a existência. aliás, é a própria existência, dita. é o que faz suas mãos tocarem, falarem.
uma inspiração é um alívio e uma angústia, uma inspiração é um feto, uma semente que pode secar se você não plantar. é um campo cheio de dentes-de-leão que se tornarão algo longe dali. é tudo o que pode vir a ser ou ajudar a nascer.
foto // anna flávia horta

inspiração às vezes é como sentir o cheiro da cebola dourando. toda inspiração é seguida de um suspiro. é um eterno entra e sai: entra inspiração, sai suspiro. de doçura, alívio. de prazer.

sempre que tenho uma inspiração, inspiro o ar profundamente, como se imediatamente precisasse correr e me desfazer dela, como uma necessidade fisiológica. é exatamente isso: uma necessidade fisiológica.