profundeza

foto // josé de holanda

cravou as unhas por fazer na areia úmida e escreveu, sem força: “nada”. sentia o vento e uma solidão que não fazia mal. então, com vontade, forçou novamente (e outras tantas vezes) os dedos contra a areia e formou as letras, fundas. ficou ali, brincando com a areia e com o significado do nada.

cobriu tudo novamente, mas a palavra havia ficado bem marcada, de modo que apenas jogar a areia de volta não seria suficiente. difícil repor tudo depois de um buraco tão profundo ter sido feito. sabia que, com o tempo, com o vento e o mar, tudo acabaria se desfazendo, voltando a ser plano como antes… cicatrizaria – quanto tempo não sabia. então nem se preocupou. é difícil cobrir um vazio deixado como se ele nunca houvesse existido, mas sabia: se ninguém pisa, ele fecha.

providencial

Sabe por que isso tudo? É porque eu pensei que podia fugir, que podia entrar em um ônibus e fugir de tudo. E eu podia. Então comecei a acreditar que era só comprar uma passagem que muitas coisas iam se resolver, ainda que temporariamente. Ainda que se resolvessem e, um dia depois, se complicassem mais do que antes. Parecia a oportunidade de fuga que eu precisava (e era!), para respirar, sentir, viver e para ser outro eu; e foi providencial.
Mas eu precisei fugir da própria ideia de fuga que eu criei. Já parou pra pensar no que significa esquecer algo? Esquecer também podia ser ficar dormente e era nisso que eu estava querendo me concentrar.
Precisava fugir de tudo que outrora se concretizou pra mim como a oportuniade perfeita de esquecer… esquecer de mim, só por um tempo. E eu estava esquecendo lindamente, eu sabia disso. Escolhi assim. Nunca pareceu tão saudável esquecer de mim e fazer planos infalíveis.

E falharam todos.

cabe dizer: “na vida, as coisas mais doces custam muito a amadurecer.”
Caio Fernando Abreu

o que me interessa

Sabe uma coisa que faz diferença? Quando acontece uma coisa boa, faz diferença em quem você pensa imediatamente pra poder contar o que aconteceu…
Também faz diferença em quem você pensa quando acontece algo triste, mas a pessoa que você logo lembra quando está feliz foi lembrada simplesmente porque é importante, você não precisa dela pra fazer você se sentir melhor, só pra dividir uma alegria mesmo.
Fiquei surpresa que, diante da minha alegria e satisfação com uma coisa, eu não tenha pensado em quem, noutros tempos, e durante muito tempo, era a primeira pessoa que me vinha a mente. Isso deveria ser muito bom, porque é sinal que está cada vez mais superado, mas ao mesmo tempo, dá uma nostalgia, né? Mas tem que saber deixar as coisas pra trás e saber também a hora de fazer isso.


“Quando eu olhar pro lado
eu quero estar cercado só de quem me interessa.” (Lenine)

nunca é

Eu estou aprendendo a lidar com uma coisa antiga. Até hoje! E acho que sempre ainda estaria. Quando a gente ama de verdade, a gente aprende a ser tudo que a gente quiser. Eu pensei que um machucado estava cicatrizando, mas gente, meus machucados nunca cicatrizam; meu pai me disse hoje que eu sou masoquista…
… mal sabe ele que sou mesmo.
Hoje eu estava entusiasmadíssima com uma carta que enviei. Senti uma sensação de que tudo o que precisava estava ali, que não faltava nada. Tudinho. Mas já me sinto levemente arrependida. Depois de um tempo tudo que a gente escreve parece tão ordinário e desnecessário.

“Por que o amor nunca é suficiente?”
Alice (Natalie Portman), em Closer

o resíduo final

Sempre gostei muito da sinceridade…
Você vai dizer: “todo mundo gosta de sinceridade”, mas não é verdade. Tem muita gente que prefere uma verdade enfeitada e cheia de lacinhos do que a nua e crua. Eu prefiro a nua.
Uma verdade enfeitada não é uma verdade genuína, é quase uma mentira, porque não te mostra o que é realmente. Mas tem gente que prefere assim. O perigo está em não saber enxergar sem o embrulho e os penduricalhos.
Eu gosto do modo como algumas pessoas têm a capacidade de falar o que pensam e o que pensam de mim, de modo que beira a estupidez. Eu me interesso por isso, me interesso pelo grau de envolvimento que leva uma pessoa a me dizer a verdade como ela é, sem se preocupar em podar uma coisa ou outra pra ela ficar mais fácil de pegar pra si. Gosto da verdade com os espinhos mesmo, gosto de pegar com espinhos e de me machucar com eles.
Só assim funciona, enquanto cicatriza.

“A verdade é o resíduo final de todas as coisas.”
(Clarice Lispector)

* cliquem na imagem e reparem na sutileza do pulgão. 🙂