uma aprendizagem

 
Olhava e disfarçava. E pensava em como haviam semelhanças entre elas, físicas também, mas não só. E mesmo que não fossem visíveis, parecia saber disso. E por algum motivo que realmente não se sabe, ela tinha certeza de que o livro que agora a moça tirava da bolsa era um livro da Clarice Lispector. Só não esperava que fosse logo aquele. Pensou em dizer, mas hesitou. E quase disse várias vezes, mas tentou distrair os pensamentos para o trem que passava do lado de fora. Pensava em como não possuía coragem para abordar uma pessoa estranha, e em como queria que ela soubesse que havia se identificado e sentido que ela pegaria aquele livro (loucura?).
Acontecia, ali, a todo momento, uma comunicação mental entre as duas pessoas. Uma troca intensa, estranha, que nunca havia acontecido. Uma queria falar, queria comentar que aquele livro havia sido o melhor livro que já lera. A outra queria dizer que a conhecia; que já havia lido suas coisas.
Durante alguns minutos permaneceram em silêncio
Quando finalmente alguém teve coragem de quebrá-lo.
 

capítulo I . a espera

juiz de fora

Não me lembrava de sentir meu coração bater tão rapidamente como estava acontecendo, parecia tão acelerado que eu sentia dificuldade para respirar fundo, às vezes. É sério, eu queria chorar, mas era bom. “Que medo alegre, o de te esperar“, lembrava dessa frase da Clarice Lispector. Senti como se em poucos segundos fosse entrar num palco, e uma multidão, do escuro, assistiria a todos os passos que eu reproduziria ali, tão ensaiados. Eu precisava sorrir e mostrar segurança. E aquele frio na barriga de estreia, de ter que lembrar de tudo, de não esquecer a contagem, aquela sensação gostosa de que seria, como sempre, um dos melhores momentos da minha vida. E que durante todo o tempo meu corpo (re)agiria como se estivesse em transe, sendo levado por alguma coisa que a gente que dança nunca sabe dizer o que é. Como é possível deixar a emoção falar tão alto e, mesmo assim, lembrar de tudo e não errar um movimento? É assim quando se dança. E passaria tão rápido, ainda que o espetáculo demorasse 10 músicas. Ainda que demorasse dois dias e uma noite.

Querido B.,

Obrigada por me proporcionar os sorrisos mais sinceros que tenho sido capaz de dar ultimamente, pelo carinho de cada tom de voz exaltado que termina em gargalhada, pela sutileza e simplicidade de cada momento que existe quando você está, pela presença silenciosa que sempre e inacreditavelmente conforta. Pelos olhares que quase sempre também terminam em sorriso. Pela doçura e pelo azedume, que juntos tem um sabor irreconhecível e muito agradável. Por toda espontaneidade e naturalidade possível.
E também, é claro, pela amizade e compreensão. Por cada pequena alegria de estar por perto, por mais vil que seja. E, por fim, pela saudade que deixa, toda vez que vai embora, e pela satisfação que traz, em cada reencontro.

Saudades já,
P.

“Eu me aprofundei mas não acredito em mim
porque meu pensamento é inventado.”
Clarice Lispector

será?

“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar. Estou desorganizada porque perdi o que não precisava?
(…) Mas e agora? estarei mais livre?”
Clarice Lispector, em A paixão segundo G.H.

plenitude (?)

Só consigo passar um sentimento adiante segurando a mão, apertando, abraçando, olhando, mas, principalmente, escrevendo. Quis dizer tudo o que estava sentindo, mas não consegui começar a frase; só consegui pensar em como seria ideal se fizesse isso ou aquilo. Tudo que eu conseguia fazer, enquanto pensava, era apertar as mãos. Às vezes me dava vontade de chorar, às vezes eu só sorria, muito levemente, sentindo um aparente conforto de estar sendo compreendida com as mãos entrelaçadas. Eu levantava o olhar vez ou outra, observava. Estava indo embora, acabando, ficando pra trás de novo. Via tudo passando rápido pela janela e o tempo de permanência juntos acabando. Acho que consegui ser compreendida.
No fim do dia eu estava feliz por ainda ser capaz de sentir o que senti, por ser capaz de ter a vontade que eu tive. Queria guardar isso tudo num potinho, pra poder de vez em quando pegar um pouco e sentir de novo, sempre que eu quisesse.

“Ela queria o prazer do extraordinário que era tão simples de encontrar nas coisas comuns: não era necessário que a coisa fosse extraordinária para que nela se sentisse o extraordinário.”
Clarice Lispector, IN “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.”

o resíduo final

Sempre gostei muito da sinceridade…
Você vai dizer: “todo mundo gosta de sinceridade”, mas não é verdade. Tem muita gente que prefere uma verdade enfeitada e cheia de lacinhos do que a nua e crua. Eu prefiro a nua.
Uma verdade enfeitada não é uma verdade genuína, é quase uma mentira, porque não te mostra o que é realmente. Mas tem gente que prefere assim. O perigo está em não saber enxergar sem o embrulho e os penduricalhos.
Eu gosto do modo como algumas pessoas têm a capacidade de falar o que pensam e o que pensam de mim, de modo que beira a estupidez. Eu me interesso por isso, me interesso pelo grau de envolvimento que leva uma pessoa a me dizer a verdade como ela é, sem se preocupar em podar uma coisa ou outra pra ela ficar mais fácil de pegar pra si. Gosto da verdade com os espinhos mesmo, gosto de pegar com espinhos e de me machucar com eles.
Só assim funciona, enquanto cicatriza.

“A verdade é o resíduo final de todas as coisas.”
(Clarice Lispector)

* cliquem na imagem e reparem na sutileza do pulgão. 🙂