o ponto

foto // josé de holanda
Há de se mexer a colher de pau até dar o ponto. Não deixa ninguém mexer. Não deixa ninguém adicionar açúcar ou pimenta, se não quiser. Não deixa que estraguem o ponto dele. Mexa bem, sem parar, em fogo baixo, para não agarrar na panela. Diz ele que fogo alto não serve pra nada, mas eu às vezes ponho porque sou muito ansiosa. Mas é pra isso mesmo que serve, pra gente ansiosa quebrar a cara. Não precisa de pressa. Se for pra ter pressa, então deixa.

E você não parou de mexer porque eu falei não, né? Então… continua.
Demora mesmo. Se desanimar, se não manter a força até o fim, pode dar errado. Em último caso peça ajuda a alguém de confiança, mas dizem que se outra pessoa mexe, estraga tudo.
Então eu acho melhor não parar de mexer e ir até o fim. Mesmo que pareça que nunca vai estar bom o suficiente. Sempre vai parecer, vai dar calor, cansaço, o braço vai doer, mas não tem o que fazer, você escolheu fazer agora arque com as consequências. E faça com amor, por favor, porque fica mais gostoso. Depois talvez você ainda pense que não ficou como deveria, mas é assim mesmo. Nós nunca vamos estar satisfeitos.
Não se esqueça de continuar. Precisa ganhar forma para, só então, saborearmos ele, o doce de banana.

sem desperdícios

Não desistam da empada só porque tinha uma azeitona, por favor! Aprendam a conseguir ignorar detalhes como esse. Ninguém morre por causa de um sabor de azeitona, então parem de considerar que uma azeitona na empada é algo a se dar por perdido. Vai fazer o quê? 
Depois de mastigar tudo vai querer cuspir e jogar fora? Você acha isso realmente justo? Desistir? Não estou pedindo pra você comer uma torta de azeitona e achar bom, é só pra ignorá-la em uma empada. Acostume-se com esse mero detalhe e daqui a um tempo você nem vai mais sentir o gosto. 
E daqui a um outro tempo, as empadas nem vão vir mais com azeitona. E você vai esquecer que um dia odiou azeitona, vai esquecer inclusive o sabor que elas tinham.
Um dia capaz que você pare de encontrar azeitonas em empadas. Talvez passe a comprar empadas em outro lugar. Talvez pare de comer empadas.
E é assim que são as coisas. Assim tudo se dá, ignorando detalhes que dão um gostinho ruim, a gente acaba perdendo o tino pra esse gostinho. 
E o gostoso predomina. Não vamos deixar nada estragar isso.

Além do mais, quer saber? 
Eu, particularmente, amo azeitona.

humana

Ela deu um suspiro pra ele, e como quem se alimenta de suspiros, ele rapidamente percebeu que ali mesmo deveria ficar e viver, por algum tempo. Quanto tempo? O tempo que fosse preciso para que ele soubesse se valia a pena. O tempo necessário para ela, ao menos, descobrir o seu nome e entender se deveria deixá-lo viver ali com ela por mais tempo. Mas também não sabia quanto. Ela não queria deixá-lo ir embora enquanto não descobrisse porque ele existia para ela. Foi a coisa mais sedutora que aparecera para ela nos últimos anos. Completamente sem registro de coisa parecida em meio a tudo que já vivera. Ela olhava para ele, com um sorriso no canto do rosto, sem saber o que fazer daquilo tudo. O que fazer daquele fascínio que ele exercia sobre ela. De repente lhe ocorreu: como vou alimentar isso?
Ela mesma mal tinha o que comer dentro de casa. Então foi tomada por um leve desespero. Do que ele se alimentaria? Suspiro? – Ela queria verdadeiramente cuidar dele. Foi tomada por um sentimento que considerou pura humanidade e amor.
 

compensação

É importante sempre ter um gosto bom, sempre ter um pedacinho da parte mais gostosa em todas as garfadas, até o final. Porque às vezes você vai ter jiló e picanha de almoço e vai ter que comer tudo. E de nada adianta colocar jiló com picanha no prato, se você come a picanha toda no começo; depois você tem que sentir o amargo do jiló, que faz até você esquecer do prazer que foi comer a picanha (e que injustiça isso!)
Há de se ter uma balinha pra chupar depois da dipirona em gotas, há de se misturar o arroz que está sem sal com o feijão que ficou salgado demais. É preciso misturar sempre o que não está ou não é tão bom com um pedaço generoso do que há de melhor. Faz-se isso para o final.
No fim o gosto na boca tem que ser bom, não interessa se distribuiu a parte boa ou se deixou ela toda pro final. Mas é melhor que seja distribuída, para que não haja maiores sofrimentos.
Eu preciso dessa compensação.
Há de se ter esse cuidado, de mesclar bem o saboroso com o que pode ser amargo ou desagradável. Senão nunca se aprende a digerir o jiló.

gula

Mais do que satisfeita. Estou com aquela sensação de estufamento que se fica quando se come bem além do necessário. Como quando você come pelo prazer que aquela comida está te proporcionando, mas é incapaz de sentir os sabores com a precisão e a delicadeza que exige, mas sabe que, sobretudo, é gostoso. Você começa porque prova e gosta do que sente, então continua comendo, comendo, comendo. E de repente perde o controle e devora, como um animal, o que vê pela frente.
Depois reconhece que muito se perdeu nessa ânsia toda e que precisa novamente degustar tudo de novo, agora com mais serenidade, para conseguir perceber cada sabor presente.
Assim me sinto hoje, que falta comer só a casquinha de “Cândido, ou o Otimisto”, de Voltaire.

sobre cebolas e lágrimas

Tudo era grave demais. Picava os tomates com uma precisão e paciência que irritavam o marido faminto. Cortava tudo em minúsculos quadradinhos, principalmente a cebola. E chorava. Antes não cometia ato tão vergonhoso, mas talvez o tempo tenha deixado seus olhos mais sensíveis. Ou talvez o tempo tenha deixado tudo mais sensível a uma cebola, mesmo porque as comidas ficavam mais gostosas com ela; e a salada também, mesmo crua! E agora me ocorreu a capacidade da cebola de ser tão forte a ponto trincar na língua, de irritar durante a mastigação, de temperar um alimento e desaparecer, e de ser tão doce, quando levemente cozida ou refogada. Ouvi uma vez que chorar descascando cebola era sinal de que a pessoa era ciumenta. Nunca tinha acontecido.

sobre a mastigação e a má digestão

O GARFO (1927), de André Kertész.
Sabia que a mastigação era importante porque desde pequena sempre me falavam muito para mastigar os alimentos várias vezes. Até triturar bem, até tudo virar uma grande massa de comida que depois poderia ser bem mais facilmente digerível pelo corpo. Mas sempre engoli arroz e macarrão, por exemplo, sem praticamente mastigar. Mastigava afobadamente e o suficiente para reduzir o alimento a partículas menores o bastante apenas para passar na minha garganta. Sempre engoli palavras assim também, mal havia digestão. Só que às vezes isso me fazia mal.. a bem da verdade, quase sempre meu corpo não conseguia digerir tudo e não conseguia separar o que era bom do que era ruim, e tudo acabava fazendo muito mal. Tantas coisas boas que acabavam sendo prejudiciais, simplesmente porque meu corpo, sem culpa alguma, não conseguia distinguir. Era fisicamente impossível.
O resultado era indigestão, dor de estômago, azia. E aquilo doía a tarde inteira, e noites e dias inteiros, e semanas inteiras. Preciso agora mastigar com mais calma, para conseguir separar o que é bom pra mim do que é ruim; para conseguir tirar de mim o que é ruim, sem maiores problemas, dores e traumas. Sem sofrimento. O que não é bom, o que não presta, não vai ficar.