voo

foto // anna f. horta

dia desses ‘tava voltando pra casa e, imagine só, quase pisei no que chamei de liberdade. na hora me ocorreu “liberdade”. pequena e cor-de-amarelo-desespero, começou a saltitar, como se não conseguisse alçar voo. saltitos que se passariam por alegres – talvez fossem.

percebendo certa incapacidade ou invalidez, me enchi de um sentimento puramente egoísta e mesquinho e, tentando fazer com que ela não percebesse, me abaixei devagar. mas bem devagar mesmo. talvez alguém tenha visto e rido de mim que, pobrezinha, me curvei diante da liberdade. 
continuou saltitante, como se estivesse com a asa machucada. primeiro pensei em cuidar de uma possível ferida, mas a verdade que ninguém diz era que minha crueldade já existia e estava pra nascer. já pensava em ficar com ela pra mim, com uma frieza que tentava despistar a mim mesma dela. estendi a mão em um movimento ridiculamente sutil, certa de que conseguiria.
e como quem acaba de passar uma lição, voou pra longe.

acredite ou não*

Entrou no banheiro já tarde da noite e começou a se despir. Dessa vez o espelho não passou despercebido, nem ela passou despercebida por si mesma. Se olhou; e como se tivesse visto alguém de quem sentia muita falta, sorriu da forma mais ridícula que era capaz. Quis se abraçar e dizer que sentiu saudades, mas ficou se olhando, ainda sorrindo daquele jeito. 

E aí ficou séria de repente, sem deixar ,porém, de ter motivos pra sorrir.

Aqueles olhos grandes que seriam perfeitos se um não fosse mais levemente caído do que o outro; a boca entreaberta, que seria um charme se também não fosse levemente torta para um lado. As sardas que quase não apareciam, que poucos percebiam, e que deviam aparecer. A bochecha rosada que seria graciosa, se não fosse apenas do lado direito. Sem falar nos dentes ruins, em algumas manchinhas, no cabelo descabelado e desbotado, na raiz escura. Sem falar também na sobrancelha por fazer. 

A ausência quase constante de maquiagem.
A preguiça constante de maquiagem…
Tudo isso e mais um monte de coisas ridículas, feias, incômodas, irritantes… Tudo isso, e ele ainda gostava dela.
*  Lenine

salada de frutas.

Trinta minutos picando frutas para fazer uma salada. Tanto tempo preparando e vivendo a expectativa de comê-la pronta que, ao fim, já não tinha mais vontade pra tanta fruta picada. Acho que é mais ou menos o que acontece quando alguém passa muito tempo (tentando ou) conquistando uma pessoa.
Só que mais tarde eu comi a salada (e até saboreei). Faltava alguma coisa, como sempre deve faltar também nas conquistas. No dia seguinte já, comprei o creme de leite (que faltava) e comi quase tudo de uma vez.
E agora que está quase acabando, eu nem quero mais…