o ponto

foto // josé de holanda
Há de se mexer a colher de pau até dar o ponto. Não deixa ninguém mexer. Não deixa ninguém adicionar açúcar ou pimenta, se não quiser. Não deixa que estraguem o ponto dele. Mexa bem, sem parar, em fogo baixo, para não agarrar na panela. Diz ele que fogo alto não serve pra nada, mas eu às vezes ponho porque sou muito ansiosa. Mas é pra isso mesmo que serve, pra gente ansiosa quebrar a cara. Não precisa de pressa. Se for pra ter pressa, então deixa.

E você não parou de mexer porque eu falei não, né? Então… continua.
Demora mesmo. Se desanimar, se não manter a força até o fim, pode dar errado. Em último caso peça ajuda a alguém de confiança, mas dizem que se outra pessoa mexe, estraga tudo.
Então eu acho melhor não parar de mexer e ir até o fim. Mesmo que pareça que nunca vai estar bom o suficiente. Sempre vai parecer, vai dar calor, cansaço, o braço vai doer, mas não tem o que fazer, você escolheu fazer agora arque com as consequências. E faça com amor, por favor, porque fica mais gostoso. Depois talvez você ainda pense que não ficou como deveria, mas é assim mesmo. Nós nunca vamos estar satisfeitos.
Não se esqueça de continuar. Precisa ganhar forma para, só então, saborearmos ele, o doce de banana.

qualquer lugar

A caminho do trabalho passei por um terreno abandonado. Muito mato, coisas jogadas, lixos e um muro parcialmente destruído. De dentro do ônibus, através do pedaço quebrado de muro, via-se vários pontinhos amarelos no alto de um caule leve e esguio, mas não tanto a ponto de não conseguir equilibrar aquele mimo.

Eram dentes-de-leão, ainda -e com o perdão do trocadilho – na flor da idade. Eles, que vegetam em qualquer lugar, sob quaisquer condições, bastando apenas o vento ou o sopro de alguém que acredita. Logo eles, nunca floresceram no meu quintal, mesmo eu tentando sempre – e isso nunca entendi.
Não dava para entrar no terreno, poderia até mesmo ser perigoso se alguém tentasse. O mato era alto, mas os detalhes amarelos eram altos e visíveis de longe. Nenhuma vida considerada o que chamam de “bonita”. Isso sem falar nos ratos e baratas que não vi, mas certamente existiam ali.
Sem afobação, o jeito era esperar aquelas petalazinhas amarelas darem frutos e o vento soprar. Espontaneamente. E depois nascer de novo, naquele terreno sujo e sem cor, ou no meio do concreto, em uma frestinha da calçada. E depois dar frutos, secar, ventar. E nascer. De novo. Incansavelmente, em qualquer lugar.

beira-mar

Ele queria me levar para um lugar que eu não queria ir. Eu não devia, mas ele tinha uma força estranha e de alguma forma era sedutor. E eu? Eu era fraca (e nem sabia disso até então)
Ele era o nada dentro da concha vazia no criado-mudo da sala, que ela ouvia e fantasiava quando criança. Era o vácuo, pregando uma peça. Era o som que me tranquilizava e me fazia sonhar, embora quase não caracterizasse som algum. Era bom ouvi-lo, porque toda vez isso fazia com que ela ficasse mais calma e otimista. 
Por isso queria ir. Sempre que se encontravam, conversavam. Ela mais ouvia que falava, porque ele tinha muito a dizer. Tinha também coisas simples para ensinar. Mesmo assim não queria ir, tinha medo de entregar-se ao acaso, à força da correnteza daquilo que até então chamou-se destino.
Não dava para saber se seria bom, a não ser que corresse o risco. O risco de se perder, o risco de não querer mais voltar, o risco de não dar pé, se fosse longe demais. Havia também o risco de o ar faltar ou de ser muito frio.
E o principal: o risco de não conseguir mais voltar. Esse era o mais temido. Era, também e por isso, o mais necessário dos riscos nesse momento da vida: uma força que a obrigasse a ir, mesmo sem que ela quisesse.
A medida que se aproximava dela, seus pés afundavam levemente e, sem que percebesse, ficava cada vez mais presa ao chão. Queria permanecer ali, de olhos fechados. Sem ver ninguém e sem ser vista. Apenas sentindo e sendo levada.

Percebeu que podia; o mar se encarregou do resto. 
E hoje eu não sei mais.

riscos cotidianos

Ir, sem querer ver onde o próximo passo vai pisar. Sentir um vento de fim de tarde e respirar fundo, concentrada naquela caminhada com destino final sabido, mas com os pequenos destinos de passos desconhecidos. Pequenos riscos cotidianos.
Fechou os olhos, em outra experiência dessas de caminhar de olhos fechados.
A caminhada de olhos fechados era mansa. Existia com medo, mas os passos eram firmes e qualquer tropeço  seria rapidamente superado e a caminhada retomada. Eram passos confiantes. Antes de fechar os olhos analisou o caminho a ser percorrido. Não haviam muitos obstáculos (havia uma lombada). Uma vez de olhos fechados, eles poderiam surgir. Acreditou que não surgiriam e foi, quase livre.

Como se quisesse inspirar o asfalto do chão, respirava profundamente, sem violência, e pendia a cabeça para trás, como se olhasse o céu – e olhava, porém, de olhos fechados. Não tropeçou, andou pouco. Mas de olhos abertos e atentos já havia tropeçado inúmeras vezes.
O percurso cego de olho foi breve, pois ainda era experimental. É que em alguns momentinhos, alguns passos precisam ser dados assim, pelo desconhecido; alguns riscos precisam ser corridos para que o viver seja merecido. Mas não se pode esquecer os olhos fechados, senão fica-se cego pra sempre (e nem percebe-se).

capítulo IX . a aurora

juiz de fora
Que surpresa! Que delícia manhã fria! Eu? Dormir? Não dormi não! Fiquei aqui proseando com você, amanhecendo vagarosa. Pensando na hora certa de levantar silenciosamente, escrever um bilhete e sair pra comprar umas coisas para o café da manhã. Pensando num jeito de abrir a porta sem alarde, pensando no queijo minas mais fresco que tivesse e no leite. Como sempre pensando demais e demorando um pouco pra isso. Mais cedo olhei se tinha filtro pra coar o café e tinha um só! Acho que não tinha café não, mas eu ia comprar. E também ia procurar umas bananas. Tudo ia ficar tão bonito pra você… “vou só esperar clarear, né…“, pensei. E, enquanto isso, confabulava um bilhete: seria muito bonito, seria poético e faria sorrir, como tudo ali.
Mas acabou amanhecendo tarde demais para a surpresa, não teria dado tempo. Esperei sem ansiedade, mas depois não deu mais. Eu dava qualquer coisa pra ver sua cara, ao acordar, não me vendo e encontrando o bilhete que eu teria escrito e que seria lindo.
Por fim, o dia na verdade não chegou a clarear, o que fez da minha espera vã, de qualquer forma. O que também me fez concluir que já devia ter amanhecido há muito tempo também.
O pingado e a laranjada foram d’ali de perto. Sem alternativa, amanhecemos e saudamos a chuva fina que ensaiava cair e o frio dia bom que amanhecia e prometia.
Bom dia!

capítulo VIII . a insônia

juiz de fora
Tudo como haveria de ser, principalmente com o calor e o amor daquela preciosidade de bebida e de momento. Eu tentava dizer as coisas… meu Deus, como eu tentava! Havia o que ser dito e isso precisava ser feito de várias formas, mas o sono não permitia que houvesse um diálogo. Acorda, escuta… Ah, não, deixa. Então, no silêncio, escrevi tudo, só observando… Eu escrevi coisas bem boas e bonitas. Pensei em tanta coisa, tanta prosa bonita que até dava um capítulo de livro. Tudo que me veio eu disse; tudo que queria dizer. E eu sei que foi tudo ouvido, perfeitamente compreendido e, de alguma forma, sentido. Sobretudo sentido. Observei o tempo todinho cada detalhe, fiz várias notas, pensei no frio, no sono, no cheiro, na fome, no ar e na respiração, no dia seguinte, nos olhos abrindo. Esperei pacientemente e sem ansiedade alguma por isso; nem pareceu uma espera, de tão agradável. Eu cometeria o descuido de dormir? Se eu dormisse, amanhã ia chegar muito mais rápido… e não podia. Não mesmo, vivi tudo. E eu só pensava em uma coisa: queria por o mundo em uma mesa de café e entregar de presente, com um copo de pingado.

capítulo VII . o bom

juiz de fora
É preciso estar preparado para tanto e não se pode aceitar um desafio por pura vaidade de querer provar que se é capaz. Mas aceita-se. Mesmo sem saber, aceita-se. As consequências variam de pessoa para pessoa. Algumas estão acostumadas com tanta intensidade, outras mal conseguem disfarçar a falta de costume. E desse jeito vive-se.
Foi assim comigo, tudo de uma vez, mas a escolha foi minha.
Era quente, intenso e provocava calafrios. Um paradoxo perfeito de percepções.
Esquentava… era inebriante, porque fazia pensar em tanta coisa, fazia imaginar situções, visualizar coisas em um futuro um tanto quanto distante.. e eram coisas lindas, gostosas, que não havia de ser possível, só podia ser muito bom mesmo pra ser verdade. “Tanto clichê, deve não ser.” Sensações diferentes, nunca experimentadas antes, mas sempre conhecidas de livros, músicas e conhecidos.. Era isso que fazia sentir. E esquentaria mesmo qualquer momento, qualquer hora, qualquer coração, qualquer estômago. Fazia sentir calor, sentir amor, sentir mais calor, depois mais amor. Depois amor com calor. Dava vontade de só ser feliz e pronto. Ele trouxe consigo, com muito zelo e orgulho, o cuidado era pra não quebrar, porque apesar de forte, vinha dentro de vidro. Essas coisas precisam de muito cuidado, não se pode desperdiçar, é até pecado fazer isso, gente! Mas cuidado mesmo, mais ainda, carece é quando entorna: qualquer faísca e já pega fogo em tudo. E pegava mesmo! Era tão poderoso, que podia matar a gente, podia embriagar a gente, podia só deixar feliz, alegre, ou então fazer chorar… Isso também varia de pessoa para pessoa. Eu fechava os olhos e pouco depois abria, sem acreditar.
A cachaça era Boazinha, exatamente como ele.