quando a maré baixa

pegadasnão acho que tenha sido coincidência que depois de conhecer uma pessoa que faz eu me sentir tão tranquila e serena, meu primeiro encontro com o mar tenha sido igualmente tranquilo e sereno. fazia muito tempo eu só o encontrava bravo. e eu que sempre falei que gosto de maré cheia, percebi que o mar calmo também pode ser profundo a medida que a gente caminha. a medida que a gente segue.

a profundidade existe.

o tipo de obviedade com que a gente precisa ser confrontado pra sentir (o que vai muito além de saber). o mar é profundo e perene, isso independente do seu temperamento. e lá, onde é possível mergulhar, bem mais distante da areia, nadar é muito mais prazeroso, porque além de ser calmo, é possível.

o risco existe, sempre. maré baixa não significa mar seguro e se afastar da areia pode ser muito perigoso. mas eu sempre encarei o risco. não por ser corajosa, porque não enfrento medo algum. e sim por ser destemida, porque quase sempre não vejo motivo pra ter medo.

profundeza

foto // josé de holanda

cravou as unhas por fazer na areia úmida e escreveu, sem força: “nada”. sentia o vento e uma solidão que não fazia mal. então, com vontade, forçou novamente (e outras tantas vezes) os dedos contra a areia e formou as letras, fundas. ficou ali, brincando com a areia e com o significado do nada.

cobriu tudo novamente, mas a palavra havia ficado bem marcada, de modo que apenas jogar a areia de volta não seria suficiente. difícil repor tudo depois de um buraco tão profundo ter sido feito. sabia que, com o tempo, com o vento e o mar, tudo acabaria se desfazendo, voltando a ser plano como antes… cicatrizaria – quanto tempo não sabia. então nem se preocupou. é difícil cobrir um vazio deixado como se ele nunca houvesse existido, mas sabia: se ninguém pisa, ele fecha.

beira-mar

Ele queria me levar para um lugar que eu não queria ir. Eu não devia, mas ele tinha uma força estranha e de alguma forma era sedutor. E eu? Eu era fraca (e nem sabia disso até então)
Ele era o nada dentro da concha vazia no criado-mudo da sala, que ela ouvia e fantasiava quando criança. Era o vácuo, pregando uma peça. Era o som que me tranquilizava e me fazia sonhar, embora quase não caracterizasse som algum. Era bom ouvi-lo, porque toda vez isso fazia com que ela ficasse mais calma e otimista. 
Por isso queria ir. Sempre que se encontravam, conversavam. Ela mais ouvia que falava, porque ele tinha muito a dizer. Tinha também coisas simples para ensinar. Mesmo assim não queria ir, tinha medo de entregar-se ao acaso, à força da correnteza daquilo que até então chamou-se destino.
Não dava para saber se seria bom, a não ser que corresse o risco. O risco de se perder, o risco de não querer mais voltar, o risco de não dar pé, se fosse longe demais. Havia também o risco de o ar faltar ou de ser muito frio.
E o principal: o risco de não conseguir mais voltar. Esse era o mais temido. Era, também e por isso, o mais necessário dos riscos nesse momento da vida: uma força que a obrigasse a ir, mesmo sem que ela quisesse.
A medida que se aproximava dela, seus pés afundavam levemente e, sem que percebesse, ficava cada vez mais presa ao chão. Queria permanecer ali, de olhos fechados. Sem ver ninguém e sem ser vista. Apenas sentindo e sendo levada.

Percebeu que podia; o mar se encarregou do resto. 
E hoje eu não sei mais.