quando a maré baixa

pegadasnão acho que tenha sido coincidência que depois de conhecer uma pessoa que faz eu me sentir tão tranquila e serena, meu primeiro encontro com o mar tenha sido igualmente tranquilo e sereno. fazia muito tempo eu só o encontrava bravo. e eu que sempre falei que gosto de maré cheia, percebi que o mar calmo também pode ser profundo a medida que a gente caminha. a medida que a gente segue.

a profundidade existe.

o tipo de obviedade com que a gente precisa ser confrontado pra sentir (o que vai muito além de saber). o mar é profundo e perene, isso independente do seu temperamento. e lá, onde é possível mergulhar, bem mais distante da areia, nadar é muito mais prazeroso, porque além de ser calmo, é possível.

o risco existe, sempre. maré baixa não significa mar seguro e se afastar da areia pode ser muito perigoso. mas eu sempre encarei o risco. não por ser corajosa, porque não enfrento medo algum. e sim por ser destemida, porque quase sempre não vejo motivo pra ter medo.

00h02

foto // anna f. horta

00h02: o choque térmico da água fervente em contato com os pés gelados na noite que, provavelmente, seria a mais fria do mês. decidiu usufruir de todas as sensações que aquela água quente poderia lhe proporcionar. fechou os olhos e esqueceu. o telefone tocava há algum tempo, desesperado. tudo o que era superficial foi levado pela água que, no fim, já não era mais quente. tornou-se, ela própria, líquida e quente. se percorreu e desviou de todas as curvas com facilidade. rebateu na parede, fazendo as gotículas de vapor penderem com ela… uma superfície leve se revelou, grave e intermitente.
e pela primeira vez foi livre.

impurezas cotidianas

colocar de molho e deixar por alguns dias, deixar que a água e o sabão retire tudo o que há de impuro e depois deixar mais um tempo de molho no amaciante. por fim, estender e esperar pacientemente o vento. deixar quantos dias forem necessários. esperar que fique seco e limpo, para que finalmente possa me embelezar novamente. porque ultimamente está tudo muito impuro e envolto de coisas, sentimentos e olhos ruins. muita sujeira que o vento tem trazido e eu não fecho a janela por teimosia. eu abro as janelas e portas e ainda coloco o rosto pra fora. ainda saio e rio dos outros. mas existe muita impureza em volta e nossas roupas sujam, acumulam pó. e não podemos evitar tanto, porque precisamos viver. o jeito é lidar com isso e lavar bem. não ir onde há mais sujeira, evitar a imundice, a mesquinharia e cuidar mais quando a roupa for branca. e, sobretudo, lavar sempre, mesmo que não seja perceptível a sujeira. não deixar encardir de jeito nenhum. porque quando impregna, não tem mais volta.

foto // anna f. horta

 
 
 
 
 
 
  
 
 

nitidez

foto // anna f. horta

olha, o vento às vezes faz a gente perder o foco. aconteceu comigo. quando venta forte perdemos o que queríamos do centro, sem querer. perdemos o centro. sempre dá pra tentar de novo, mas o foco do momento se perdeu e às vezes quando você conseguiu retomá-lo, o passarinho já voou. quando para de ventar pode chover, porque o vento costuma agregar muitas nuvens. e agora, além do foco, perdeu-se tudo. perdeu por quê? acha o foco na chuva, na tempestade. só não vai estragar a câmera, nem o momento. tire a foto, mesmo sem foco. a ausência de nitidez também é interessante, porque se tem movimento, é importante que isso esteja na fotografia, mesmo que desfocado – principalmente se desfocado. e às vezes é bom poder imaginar. desde que haja coragem de continuar olhando e seguindo, desde que haja um centro e certo equilíbrio. às vezes não ter um foco pode ser bom, mas só para os corajosos, criativos, ousados.
  

recomeço

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“Quero brincar, meus amigos, de ver beleza nas coisas.” Hilda Hilst
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Às vezes é preciso arrancar todas as páginas tristes que escrevemos e colocar num picotador de papel. Precisamos, em algum momento da vida, sentir essa necessidade e essa vontade, porque nós acumulamos tristezas sem perceber.
Não preciso de escritos tristes e de desabafos como recordação, Preciso de flores secas que ganhei num dia bom, preciso de declarações de dias e noites lindas. De palavras de amor.
Meus diários antigos estão todos conservados, como escrevi, mas agora é diferente. Cada dia precisa ser alegre, porque compartilho com uma relação irremediavelmente eterna, e preciso que ela veja e seja assim, alegre
Quero ter essa coragem de rasgar escritos tristes sempre, pro resto da minha vida.
 

fevereiro de dois mil e oito

Seu jeito de falar carregava a serenidade e a lassitude de um homem de setenta anos. Suas palavras, muitas vezes balbuciadas, caminhavam com uniforme vagareza; suas frases saíam sempre vagas e até mesmo entediantes. Eram frases vacilantes. E o jeito de falar era de quem parecia medir milimetricamente o que dizer. Parecia pensar com cuidado, em cada pausa que fazia, qual seria a palavra seguinte e, quando não a encontrava, suspirava. Na maioria das vezes, mesmo sem saber como dizer, sabia o que seria dito em seguida se ele não parasse. Justamente por isso, parava. Inspirava o ar profundamente e soltava, como que aliviado. Mas não era propriamente um suspiro de alívio.
Parecia cansado. Essa pausa para o suspiro normalmente dava abertura para que os outros dissessem algo ou tentassem completar seu raciocínio. E era assim toda vez que eles se encontravam e ficavam conversando por algumas horas. Acontecia também de não se ouvir nada; ficavam então em silêncio por um curtíssimo espaço de tempo. Entreolhavam-se e sorriam como se estivessem sem graça, mas não estavam. Tinham plena consciência do que acabara de acontecer.
p/ relembrar…


   

sobre luz própria

Foto: Fabrizio Boari
Nunca tinha parado pra pensar como uma pequena distração pode ser injusta, sem querer mesmo. Desde que o ônibus começou a andar eu percebi um céu estrelado como há muito não tinha oportunidade de ver. E também reparei, depois de tantas viagens a noite, que olhar as estrelas da janela de um ônibus é delicioso, porque parece um painel fixo; parece que elas estão coladas no vidro, acompanhando você.
Eu pensava em fazer um pedido, pensava que o único desejo que eu fiz, uma vez – também durante uma viagem – em uma fonte dos desejos pode estar muito perto de se realizar. E pensando isso, cogitei não desperdiçar um pedido a uma estrela com algo que gastei com 10 centavos. Sem falar, claro, que havia muitas, e eu nunca sei se devo pedir a mais brilhante ou a primeira que aparece pra mim. Nunca sei nada, mas não entrarei no mérito dessas questões.
Foi então que eu vi uma luz muito forte; quis saber de onde vinha, quis saber o que brilhava tanto. Era só a luz de uma dessas casas no alto de um morro qualquer. Depois fiquei pensando como fui injusta, deixando de olhar as estrelas pra procurar de onde a luz que brilhava tanto vinha. Um falso brilho, que não pude deixar de querer dar olhos; um falso astro, que distraiu a minha atenção de algo verdadeiramente bonito e com luz própria.
Deus, me proteja de falsas estrelas.