sobre o perecível

foto // anna f. horta

O nunca é tão eterno quanto o sempre; uma eternidade aparentemente inalcansável por nós, que somos naturalmente volúveis. E nunca saberemos se um dia ela será alcançada. Um dia morremos e as coisas acabam. (talvez não acabem)

Se fôssemos imortais talvez conseguíssemos “nunca” fazer algo, ou conseguiríamos amar alguém “pra sempre”. (talvez sejamos imortais) 
Acontece que não nos foi dada a eternidade, pelo menos não que eu saiba. Pelo menos não aqui, nisso que chamamos de existência terrena. E também não sabemos o que acontece realmente depois que morremos, mas você acredita no que quiser. Não sabemos se deixamos de existir. Não sabemos nada sobre a eternidade das coisas. Deduzimos apenas.
E, embora algumas pessoas acreditem nisso, não vivemos nada dessa eternidade também. E somos lamentavelmente românticos o suficiente para acreditar que amamos e somos amados para sempre. Nem sabemos o que é “sempre”. Você sabe?
Tudo acaba. Se transforma, na verdade, mas antes acaba. Se você faz um suco de laranja, a laranja acaba, mas você agora tem suco.
Nós não alcançamos o sempre nem o nunca; não somos capazes; acabamos antes. Apodrecemos, nos tornamos outra coisa, viramos suco de laranja. Então pare de exigir eternidade das pessoas; e pare de prometer também.

  

lixo seletivo

Pensando bem, desenhar com caneta permanente deve ser mais bonito.
Porque se você erra, não tem como consertar, a não ser que improvise e arrume o próprio estrago. E não é isso que temos que fazer diariamente? Infelizmente não conseguimos apagar nenhum risco torto que damos. Não podemos redesenhar um gesto, não podemos rasgar o papel e jogar no lixo porque ficou ruim.
Eu prefiro assim. Quando você desenha com uma borracha do lado, você pode cometer o engano de querer retocar e apagar cada detalhe, na tentativa de um desenho cada vez mais perfeito. Bobagem – de tanto fazer isso, borra o desenho, rasga o papel. É melhor colorir por cima, fazer outro desenho, transformar em algo melhor. Ou pedir desculpas a si mesmo e recomeçar em outra folha.

você é?

Têm pessoas que não conseguem ser. Existem pessoas que não querem ser o que são, querem parecer ser e se contentam com isso. Pessoas que querem ser como outras, mas na tentativa desajeitada de imitar, conseguem apenas um reflexo turvo, feio e desajeitado, mas que se assemelha a imagem real. E então fica claro para todos os olhos que aquilo é mentira. E no fim das contas, a emenda sai pior do que o soneto. As pessoas reparam, não adianta fingir que é. Aliás, aqueles a quem essas pessoas mais querem enganar – principalmente estes! – reparam.
E eu cansada de ver gente reclamando que não consegue ser feliz… De gente que não entende a dificuldade de ser feliz. Antes de SER FELIZ, primeiro é preciso SER. Depois disso você já elimina uma série de caminhos longos e errados.

sem título

Algumas coisas incomodavam porque eu pensava que toda a minha vontade me levaria a algum lugar. E cheio de espera. Nada…

Talvez a esperança sempre seja frágil e quando você vê, um ventinho fraco já despedaçou tudo. Ou então já amassou com a ponta dos dedos, absolutamente sem querer. Não a sua, mas é como se fosse, porque de certa forma é um pouco. E depois, a que vem depois parece nem ser sua. E fica um conselho meu, cuida bem da sua esperança, porque depois fica aquela sensação de que ela não te pertence mais, mesmo que você tenha, mesmo que esteja nas suas mãos. A mesma sensação de quando você está andando na rua e um gato simplesmente começa a te seguir. Você se pergunta: – por que ele está vindo comigo? – E com aquele seu preconceito bobo que tem com gatos, você mesmo responde: – porque ele quer comer, nem vai ficar muito tempo; nem adianta eu me apegar. Mas a gente pega, alimenta e se apega, mesmo assim.
A esperança não é uma coisa pra se sentir sozinho, definitivamente. Mas às vezes é o que ela mais exige da gente: que a gente tenha coragem para isso. Que a gente tenha, sobretudo, paciência para esperar. Que a gente tenha paciência para acreditar, para ouvir, para conversar, para entender, para trocar.

capítulo V. o amigo

juiz de fora

Parecia um personagem de livro. De fillme não, porque a graça seria imaginar tudo, não ver. Também porque um personagem de filme é muito óbvio e, sem querer, limita a nossa visão de muitas coisas que têm graça e que importam, justamente porque estão mais além. Parecia tão tranquilo, sossegado, mas de uma presença notável, exatamente por ser (ou parecer) tão alheio. Cada detalhe dizia um pouco do jeito que, pra mim, não é melhor descrito do que pelo adjetivo casmurro… e que, pela definição do próprio Bentinho, é “um homem calado e metido consigo“. Também tinha um ar de tristeza que depois veria que faz parte,;uma introspecção que tem seu espaço. Um andar que parece ignorar o resto das pessoas. A barba grande e a sobrancelha grossa, ambas escondendo o rosto e a expressão, escondendo o sorriso, escondendo os pensamentos tão… heterodoxos (?).
Tudo (me pareceu) milimetricamente calculado: a barba envelhecendo e dando a aparência de homem arredio, e o olhar fundo, escondido pela sobrancelha, dando um ar de cansado. Tudo queria dizer alguma coisa, mesmo que não fosse pensado por ele.
É dessas pessoas que a cada gargalhada que deixa escapar, a gente vibra, por estar conseguindo arrancar isso de alguma forma. E claro que o amigo precisaria estar bem e à vontade, porque sem hesitar, disse “sim” ao receber o convite de viajar e, sempre sem hesitar, é amigo.
Pareceu uma pessoa mal-humorada, né? Mas não, o segundo adjetivo que pra mim mais combinou foi dócil, no melhor sentido possível.
Claro que tudo aqui são apenas especulações, pois seria difícil descrever alguém aparentemente tão misterioso. Pra mim é um legítimo Dom Casmurro.

necessidades

Aprendi a não precisar dele. E foi então que entendi quando, em Closer, o Dan diz pra Alice que ama Anna porque ela não precisava dele (“Eu a amo porque ela não precisa de mim.”). Acho que é isso; mas é claro que perceberia tarde demais (é tarde?). E agora aprendi meio que arduamente a não precisar com tanta dificuldade dele. Agora não preciso mais do que julgava ser essencial; e era. Mas acabou deixando de ser, porque com o tempo outras coisas se fizeram essenciais para que eu seguisse com a tranquilidade que precisava, com a tranquilidade que eu buscava nele. E eu não ia encontrar, não do jeito que eu procurava.
Agora eu encontrei, depois de anos. Encontrei tranquilidade, encontrei amor, encontrei preocupação e amizade. Até segurança eu encontrei. O que eu buscava era isso, mas demorei a perceber que meu jeito era era sedento, desesperado; e essas sutilezas exigem da gente uma serenidade que eu não conseguia.
Quando me forcei a não precisar, ou melhor, quando precisei e não tive (e por mim tudo bem), enxerguei que na verdade eu não precisava mesmo.
E agora me sinto livre (até pra precisar dele, quando for o caso).
E talvez só agora eu ame, verdadeiramente.


então tá.

Vou ficar feliz então. Tá?
Mesmo que eu fique sem apetite, sem comer direito, que eu emagreça mais dois quilos. Mesmo que o meu jrnal seja veementemente criticado, mesmo que o meu cabelo esteja essa merda, mesmo que eu tenha descoberto que meu rosto é assimétrico, mesmo que eu esteja longe, mesmo que não adiante nada, mesmo que eu tenha duas matérias pra gravar numa tarde e editar pra manhã seguinte. Mesmo que eu me envolva sem fé alguma. Mesmo que eu tenha mil coisas pra fazer amanhã. Mesmo que eu saiba que vai ser cansativo.
Mesmo que anda me falte fé, não me faltam sorrisos e eu não vou lutar contra isso.
Eu acho que quarta-feira eu vou almoçar bem. Quarta-feira é um bom dia, vai ser véspera de feriado.

no mais, (atrasada) que seja bem vindo o Outono, né.
fica assim então.