grávida de terra

Havia um vaso antigo, com terra seca e esquecida de um velho plantio de margaridas que não havia dado certo por excesso de ansiedade e de cuidado. Todas as sementes plantadas e nascidas de uma vez, em um espaço que não comportava tanta vida (pelo menos era o que eu pensava). Muito medo de que elas não conseguissem se desenvolver e um gesto desesperado de replantio antes do tempo que elas poderiam suportar. E morreram todos brotos, esperanças e crenças de que as coisas poderiam melhorar. O vaso ficou esquecido, a terra já não permitiria vingar nenhuma semente. 

Então precisei repensar e refazer muitas coisas para conseguir começar de novo. Para renascer, precisei mexer em tudo, cuidar, encher de nutrientes e de amor, e retirar, com cuidado, pedras, pragas e outras coisas que estavam estragando minha terra e a impedindo de florescer. Precisei procurar algumas respostas e ter muita coragem de recomeçar do zero. Ainda estou tentando. Espero ter feito tudo certo dessa vez.

sapato novo

foto // anna f. horta
é assim: enquanto temos uma dor, ela pulsa e nós lidamos com ela quase que a ignorando, mesmo sentindo.
você usou um sapato que acabou machucando seus dedos e você simplesmente sabe que é isso e que dói. não deixa de calçar outro sapato por cima ou de colocar uma meia porque pode ser que doa mais ou que atrapalhe a dor a passar. ou porque pode fazer doer mais. não. você ignora e segue, sem considerar aquilo muito relevante.
mas a partir do momento em que você vê que aquela dor se trata de algo físico, você passa a tratar tudo aquilo com um drama e preocupação imbecis. você deixa de calçar alguns sapatos porque, afinal, está machucado, e você precisa cuidar disso. dane-se o machucado, já estava doendo antes. continue vivendo e experimentando quantos sapatos novos gostar, que vai passar.

sobre o perecível

foto // anna f. horta

O nunca é tão eterno quanto o sempre; uma eternidade aparentemente inalcansável por nós, que somos naturalmente volúveis. E nunca saberemos se um dia ela será alcançada. Um dia morremos e as coisas acabam. (talvez não acabem)

Se fôssemos imortais talvez conseguíssemos “nunca” fazer algo, ou conseguiríamos amar alguém “pra sempre”. (talvez sejamos imortais) 
Acontece que não nos foi dada a eternidade, pelo menos não que eu saiba. Pelo menos não aqui, nisso que chamamos de existência terrena. E também não sabemos o que acontece realmente depois que morremos, mas você acredita no que quiser. Não sabemos se deixamos de existir. Não sabemos nada sobre a eternidade das coisas. Deduzimos apenas.
E, embora algumas pessoas acreditem nisso, não vivemos nada dessa eternidade também. E somos lamentavelmente românticos o suficiente para acreditar que amamos e somos amados para sempre. Nem sabemos o que é “sempre”. Você sabe?
Tudo acaba. Se transforma, na verdade, mas antes acaba. Se você faz um suco de laranja, a laranja acaba, mas você agora tem suco.
Nós não alcançamos o sempre nem o nunca; não somos capazes; acabamos antes. Apodrecemos, nos tornamos outra coisa, viramos suco de laranja. Então pare de exigir eternidade das pessoas; e pare de prometer também.

  

sobrevida

foto // anna f. horta
saudade dói. e é exatamente essa dor que nos move. é como uma dor de cabeça, que o corpo motiva pra dizer que tem algo errado. como uma cãibra, que vem como um aviso, como um pedido para que o corpo reaja, senão aquele pedaço vai apodrecer até desaparecer.
penso inclusive que em tudo, é a dor ou a possibilidade de que nos move. nós temos medo do que vai doer, tememos o risco, o novo, tememos não saber lidar com o novo, porque não vamos mesmo saber, a princípio. tudo porque pode dar errado. e se der, vai doer.

que expectativa frustrada não dói?  no entanto, eis o que me move.

mas a saudade, essa dói de um jeito que nos obriga a agir. dói para que a gente levante e escreva ou ligue para aquela pessoa, dói até a gente dizer: “eu estou sentindo muito a sua falta hoje porque vi uma foto”. as pessoas fazem uma falta eterna, mas não é todo dia que sentimos. e às vezes dói para que a gente nunca esqueça de dizer a ela que ela nunca vai ser esquecida. dói pra que a gente comece a pensar em tudo que já viveu e se pergunte: por que eu estou sentindo essa dor?
e então a gente age, assim como quando sente fome. a gente se alimenta, diz que ama. mas às vezes não dá. então a gente chora. a gente escreve, mesmo assim. e a gente passa pela dor. ultrapassa. e depois aquilo fica adormecido mais alguns meses, até doer de novo, e a gente agir e reamar e reviver.

sólida

foto // anna f. horta

e de novo você esbarra sem querer em mim. dessa vez entorno com copo e tudo. e penetro com caco de vidro e saio fazendo mal para todo tipo de vida que cruza o meu caminho. mas eu não quero. eu não queria cair, mas não devo então me arriscar tanto, não devo ficar na beirada. não devo ficar tão exposta, pois um movimento desajeitado seu pode fazer com que eu caia. quedas são difíceis e tenho entornado acidentalmente todos os dias. a temperatura diminuiu, talvez dessa vez a existência se torne mais pesada, sólida. e eu não evaporei dessa vez. talvez demore. mas o ciclo ainda não recomeçou.

dia seguinte

foto // anna f. horta

algumas pessoas acham ir difícil e voltar fácil. eu já acho ir a coisa mais fácil de todas. então eu fico sempre indecisa, porque se eu for, não volto. eu sei que não volto, porque nunca voltei. e agora eu sei apenas que quero ir. quero o futuro, quero que as frutas que comprei na feira amadureçam logo, mas algumas nunca ficam boas, porque foram colhidas antes da época. quero que as frutas do pé fiquem boas. quero arrancar antes. quero o que vem amanhã. mas o amanhã, quando for amanhã, também vai ser hoje. e eu estou sempre preocupada com o dia seguinte, sempre pensando em se‘s. quando ele chega, deixa de ser o dia seguinte e quando eu mais deveria, paro de vivê-lo. não faço planos, apenas quero que chegue logo. tenho medo de viver sentindo amanhãs. de olhar pra trás e ver futuros murchos. ver que meu passado são futuros colhidos antes da época. tenho sentido uma ânsia de viver que piora a medida que envelheço.

sobre a vida

sonhei com trem.
sonhei com várias linhas indo e vindo, e eu precisava ir e vir sempre, fazer caminhos estranhos, cheios de atalhos, e assim que o próximo trem chegasse, precisava estar lá para entrar nele. e depois descer e pegar o próximo. não podia parar nunca. tudo isso, claro, não obedecia uma lógica, porque era como se, ao pegar um trem, eu descesse na mesma estação para pegar o próximo. como se todas as viagens que estivesse fazendo não me tirassem do lugar, mas o lugar sempre mudava, sempre precisava correr, me arriscar. era como se, em vez de o trem se locomover, a paisagem ou lugar trocasse de lugar, andasse. mas isso eu também não via. apenas entrava desesperada no trem e quando dava por mim, já era hora de descer e correr. lembro que uma hora podia ter morrido, mas acho que alguém me ajudou. ou não, talvez tenha sido só impressão minha agora, tentando lembrar. pode ser fantasia minha, pra não me sentir tão só. acho que acabei conseguindo não me machucar sozinha mesmo. e não foi fácil, viu? e também não me lembro de rostos conhecidos – eu lembro de um, que seria o rosto de quem talvez tenha me ajudado, se houve mesmo ele, ou talvez esse rosto tenha só me visto quase cair, ou quase morrer, mas não lembro da fisionomia, não lembro se arqueou as sobrancelhas diante da possibilidade da minha queda. 
e li que sonhar com trem é sempre sinal de algo novo na vida. li também que pode ser algo ruim, dependendo. mas há de ser bom, porque eu quero que seja e ponto. 
feliz dia novo.