impurezas cotidianas

colocar de molho e deixar por alguns dias, deixar que a água e o sabão retire tudo o que há de impuro e depois deixar mais um tempo de molho no amaciante. por fim, estender e esperar pacientemente o vento. deixar quantos dias forem necessários. esperar que fique seco e limpo, para que finalmente possa me embelezar novamente. porque ultimamente está tudo muito impuro e envolto de coisas, sentimentos e olhos ruins. muita sujeira que o vento tem trazido e eu não fecho a janela por teimosia. eu abro as janelas e portas e ainda coloco o rosto pra fora. ainda saio e rio dos outros. mas existe muita impureza em volta e nossas roupas sujam, acumulam pó. e não podemos evitar tanto, porque precisamos viver. o jeito é lidar com isso e lavar bem. não ir onde há mais sujeira, evitar a imundice, a mesquinharia e cuidar mais quando a roupa for branca. e, sobretudo, lavar sempre, mesmo que não seja perceptível a sujeira. não deixar encardir de jeito nenhum. porque quando impregna, não tem mais volta.

foto // anna f. horta

 
 
 
 
 
 
  
 
 

sobrevida

foto // anna f. horta
saudade dói. e é exatamente essa dor que nos move. é como uma dor de cabeça, que o corpo motiva pra dizer que tem algo errado. como uma cãibra, que vem como um aviso, como um pedido para que o corpo reaja, senão aquele pedaço vai apodrecer até desaparecer.
penso inclusive que em tudo, é a dor ou a possibilidade de que nos move. nós temos medo do que vai doer, tememos o risco, o novo, tememos não saber lidar com o novo, porque não vamos mesmo saber, a princípio. tudo porque pode dar errado. e se der, vai doer.

que expectativa frustrada não dói?  no entanto, eis o que me move.

mas a saudade, essa dói de um jeito que nos obriga a agir. dói para que a gente levante e escreva ou ligue para aquela pessoa, dói até a gente dizer: “eu estou sentindo muito a sua falta hoje porque vi uma foto”. as pessoas fazem uma falta eterna, mas não é todo dia que sentimos. e às vezes dói para que a gente nunca esqueça de dizer a ela que ela nunca vai ser esquecida. dói pra que a gente comece a pensar em tudo que já viveu e se pergunte: por que eu estou sentindo essa dor?
e então a gente age, assim como quando sente fome. a gente se alimenta, diz que ama. mas às vezes não dá. então a gente chora. a gente escreve, mesmo assim. e a gente passa pela dor. ultrapassa. e depois aquilo fica adormecido mais alguns meses, até doer de novo, e a gente agir e reamar e reviver.

cíclica

Para ler em voz alta ouvindo Pra passear – Letuce
foto // anna f. horta
às vezes você esbarra em mim sem querer e eu respingo no asfalto escaldante de uma cidade empoeirada de quarenta graus celsius. dramática, parte de mim evapora quente. a parte que ficou no copo você bebe, e a outra parte que caiu continua líquida, escapando por debaixo da porta, encontrando uma terra seca, sedenta de mim. então penetro. e depois floresço algo. sem esquecer a outra parte, que evaporou sem deixar, porém, de ser eu. ela flutua, invisível, muda. esbarra em todas as partículas de todas as pessoas e coisas da avenida, mas ninguém sabe, nem sente. de tanto esbarrar, essa parte da minha existência começa a pesar e então eu chovo. desajeitadamente como um primeiro voo de um pássaro, eu me precipito e caio. vou de encontro desesperado e esperançado com a minha outra metade que agora fez brotar e alimenta.
antes mesmo de encontrá-la, me impedem -quem? volto a ser uma possibilidade de chuva. sob uma tensão absurda de precisar me encontrar, esfrio tanto, que meu coração quase para. dessa vez sublimo e vou com tanta força que destruo o que a outra parte ajudou a nascer. depois me liquefaço e recomeço tudo de novo.
… enquanto isso você transpira. e lá estou eu, salgando seu lábio.

seis minutos

Para ler ouvindo 6 minutos – Otto
Existe uma voz que chora forte toda vez que canta, mas existe uma música que mexe mais comigo. Não porque eu me identifique ou sinta como ela é cantada, não porque eu tenha vivido algo parecido, porque eu não vivi, não me identifico. Acontece que sei, por pura dedução quase óbvia e, também, por alguma  sensibilidade, qual o contexto em que ela foi escrita. Toda vez que ela é cantada, toda vez que escuto a mesma história, com tantos berros e uma guitarra que chora desesperada a música inteira, eu choro com ela. Eu sinto como se fosse eu… tendo vivido tudo. Dói; me arrepio toda e morro um pouquinho a cada vez.
Me transfiro, imagino como seria ter uma filha e, em algum momento, ter ouvido meu amor falar sobre “uma casa pequena, com uma varanda”, chamando a Maria pra jantar, num pernoite em um quarto de hotel. Penso como seria ter vivido isso, com toda a intensidade que tenho certeza que houve, e hoje, alguns anos depois de nascida Maria, simplesmente não estarmos mais juntos, por algum motivo que talvez não fosse claro nem mesmo pra nós. Tantos planos, momentos únicos vividos e por viver, uma intensidade inexplicável que parecia fazer tudo ser inevitavelmente o que chamamos de eterno, e talvez apenas alguns minutos – tempo suficiente para uma vida, para uma canção tão intensa.
… instantes acabam.
Isso é pra morrer.

foto // josé de holanda




cheiro

inspiração é um movimento feito para dentro, primeiramente. é uma coisa que precisa ser. é uma introdução intensa e imensa daquilo que há de mais importante para viver. é uma coisa que vem com cheiro -nem sempre bom- e penetra em cada canto do corpo. (depois sai).
pulsa. vai com o sangue para onde ele é necessário. é vida, é condição para a existência. aliás, é a própria existência, dita. é o que faz suas mãos tocarem, falarem.
uma inspiração é um alívio e uma angústia, uma inspiração é um feto, uma semente que pode secar se você não plantar. é um campo cheio de dentes-de-leão que se tornarão algo longe dali. é tudo o que pode vir a ser ou ajudar a nascer.
foto // anna flávia horta

inspiração às vezes é como sentir o cheiro da cebola dourando. toda inspiração é seguida de um suspiro. é um eterno entra e sai: entra inspiração, sai suspiro. de doçura, alívio. de prazer.

sempre que tenho uma inspiração, inspiro o ar profundamente, como se imediatamente precisasse correr e me desfazer dela, como uma necessidade fisiológica. é exatamente isso: uma necessidade fisiológica.

dia seguinte

foto // anna f. horta

algumas pessoas acham ir difícil e voltar fácil. eu já acho ir a coisa mais fácil de todas. então eu fico sempre indecisa, porque se eu for, não volto. eu sei que não volto, porque nunca voltei. e agora eu sei apenas que quero ir. quero o futuro, quero que as frutas que comprei na feira amadureçam logo, mas algumas nunca ficam boas, porque foram colhidas antes da época. quero que as frutas do pé fiquem boas. quero arrancar antes. quero o que vem amanhã. mas o amanhã, quando for amanhã, também vai ser hoje. e eu estou sempre preocupada com o dia seguinte, sempre pensando em se‘s. quando ele chega, deixa de ser o dia seguinte e quando eu mais deveria, paro de vivê-lo. não faço planos, apenas quero que chegue logo. tenho medo de viver sentindo amanhãs. de olhar pra trás e ver futuros murchos. ver que meu passado são futuros colhidos antes da época. tenho sentido uma ânsia de viver que piora a medida que envelheço.

qualquer lugar

A caminho do trabalho passei por um terreno abandonado. Muito mato, coisas jogadas, lixos e um muro parcialmente destruído. De dentro do ônibus, através do pedaço quebrado de muro, via-se vários pontinhos amarelos no alto de um caule leve e esguio, mas não tanto a ponto de não conseguir equilibrar aquele mimo.

Eram dentes-de-leão, ainda -e com o perdão do trocadilho – na flor da idade. Eles, que vegetam em qualquer lugar, sob quaisquer condições, bastando apenas o vento ou o sopro de alguém que acredita. Logo eles, nunca floresceram no meu quintal, mesmo eu tentando sempre – e isso nunca entendi.
Não dava para entrar no terreno, poderia até mesmo ser perigoso se alguém tentasse. O mato era alto, mas os detalhes amarelos eram altos e visíveis de longe. Nenhuma vida considerada o que chamam de “bonita”. Isso sem falar nos ratos e baratas que não vi, mas certamente existiam ali.
Sem afobação, o jeito era esperar aquelas petalazinhas amarelas darem frutos e o vento soprar. Espontaneamente. E depois nascer de novo, naquele terreno sujo e sem cor, ou no meio do concreto, em uma frestinha da calçada. E depois dar frutos, secar, ventar. E nascer. De novo. Incansavelmente, em qualquer lugar.