espontânea

Algumas sementes simplesmente não germinam, por mais que a gente cuide e regue, por mais que a gente queira. Poucos sabem, mas muitas estão dormentes. É mais comum do que se pensa. Uma qualidade natural, uma característica sagaz que muitas possuem com a única e incrível finalidade  de sobrevivência. Permanecem em estado de dormência, para se manterem armazenadas na natureza por mais tempo e somente quando o ambiente é realmente propício para se desenvolverem, elas se desenvolvem… uma verdadeira inteligência emocional.

Pois era o oposto disso. A semente que quero descrever aqui era um tipo que bastava deixar acidentalmente num canto qualquer de terra e chover um pouquinho que já ia logo brotando. Uma mudinha ia subindo, desajeitada mesmo, no ar mesmo, e depois se agarrava ao primeiro pedacinho de terra que encontrasse. Brotar era extremamente fácil. Não carecia fertilizantes, cuidados muito especiais. Não.  Qualquer distração ou acidente, e já estava se desenvolvendo, criando caule e força. Espontânea. Já queria ser árvore.

E foi exatamente assim que germinei da última vez.

semente

manjericão

Ele então me disse: “não adianta ir quebrando os galhos, você tem que tirar tudo de uma vez, pela raiz. Esse pé já está seco, tem que arrancar o que sobrou pra plantar outra coisa na terra”. O pé de manjericão não estava completamente seco, ainda haviam umas folhinhas, que mal resistiam, mas eram suficientes pra perfumar ainda.

Fui arrancar a planta seca e enraizada e ele disse: precisa ir com cuidado, girando de um lado pro outro, devagar, senão não sai. Era muito tempo de planta e os galhos secos machucavam. Depois que morreu é que fui descobrir que devemos cortar as flores do pé, para mantê-lo saudável por mais tempo. Não fiz isso, soube tarde demais de certos cuidados. 

Foi quando fiz uma força que nem sabia que tinha e arranquei-o de lá, espalhando um pouco de terra no entorno, mas nada demais. O vaso segue sem plantio, tomando chuva e sol, a mercê da naureza. De vez em quando surgem uns trevos (nenhum de quatro folhas) e uns matos despretensiosos, mas é sinal de que a terra ainda é fértil.

rascunho

foto // a.horta

Eu nem sabia mais o que fazer com tantos versos, mas ia escrevendo naquele papel que encontrei na estante. Fui rasurando, escrevendo em cima, desenhando estrelinhas, fazendo setas e redirecionando o raciocínio para os poucos espaços em branco que ainda existiam nos cantos das páginas. No fim, eu tinha uma página tão caótica, rabiscada, suja, borrada com lágrimas, café, uísque, que mal dava para entender. Eu não ia passar a limpo, lamento por mim mesma por tanto rabisco e confusão, mas enquanto isso, escrevi. Eu sempre odiei rascunhos, sempre odiei passar a limpo, sempre mudei tudo quando fazia isso. Quando percebi, passei a escrever de caneta. E depois que acostumei, voltei pro lápis. Esqueci um dia em cima da mesa e a faxineira pensou que era lixo, um papel usado talvez para experimentar se a caneta nova estava funcionando ou para rabiscar enquanto falava ao telefone. Ela jogou fora, sem questionar. Eu também não questionei.

ser (humano)

ser não é uma tarefa fácil, que ninguém se engane. e a felicidade, creio, mesmo que não passe de momentos felizes sobrepondo outros tantos momentos, ainda é uma questão não tão simples de ser. a cidade e as pessoas determinam o que você é? muitas vezes ela me impede de ser. e adiamos perigosamente o momento em que iremos parar verdadeiramente diante de nós mesmos para ver o que aconteceu e o que nos tornamos (ou o que estamos nos tornando).
Ontem uma Lagarta cruzou o meu caminho querendo saber quem eu sou. (sabe?) e parafraseando a Alice, quando acordei ontem de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então. e talvez a verdadeira busca do ser humano oscile entre SER e saber que se É..

acidente ou incidente?

foi um acidente. eu estava ajoelhada reorganizando papéis, coisinhas e, sobretudo, pensamentos. sobretudo ainda mais reorganizando a vida. momentos raros em que eu fico só, mexendo nos meus livros, cartas antigas, anotações e reflexões, tentando manter uma lógica de organização. esvaziei as gavetas e as caixas, me coloquei diante de tudo vazio de um lado e tudo esparramado do outro. assim – exatamente assim – estava a minha vida nos últimos tempos. me deparei com a minha compulsão irremediável por caixas numa tentativa infantil de ser um pouco mais organizada, principalmente internamente. um gesto em falso.

mesmo sem saber por onde começar e tomada por uma vontade incontrolável de largar tudo e começar a escrever qualquer inspiração que me ocorria, eu comecei. a inspiração teria de esperar. e sem muito critério, concluí a arrumação, percebendo na sequência que eu não tinha tanta coisa assim para guardar. muita coisa joguei fora, muitas se perderam com a minha falta de organização e, sem que eu esperasse, muitas caixas terminaram tragicamente vazias, como eu.

primavera

era uma primavera de ventos fortes e, também por causa disso, eu já não estava mais tão florida.

a cada chuva fui perdendo flores e folhas, fui perdendo a beleza e a cor. mas a calçada ficava cada vez mais poética, porque tudo que é triste é muito poético. 
houve então uma chuva forte, que além de me derrubar flores e folhes, me envergou todinha e me fez ficar um pouco fraca. quando são arbustos, coloca-se um talo para tentar devolver a planta ao seu eixo, mas de uma árvore tão grande não há muito o que fazer. e eu era enorme. era uma questão de tempo.
outras chuvas vieram. a seguinte foi tão forte pra mim, que perdi alguns galhos e, por conta disso, machuquei alguns inocentes. o vento era tão forte que senti como se estivessem me arrancando as raízes da terra e do concreto que havia por cima. me senti vulnerável, mas permaneci.
e antes que eu pudesse me recuperar desse temporal, veio uma chuva mais branda. se fosse essa a primeira chuva, talvez os galhos nem se balançassem, mas eu já estava bem fraca e, sem escolha, caí. em cima de tudo e diante de pessoas que há um mês me admiravam.

sementes que secam

com a mesma força e firmeza com que você se desfaz daquela calça que não usa há um ano, mas sempre gostou muito, se desfaça também daquelas daquelas relações que estão guardadas no fundo da gaveta há anos, apenas ocupando espaço e criando teias de aranha. simplesmente deixe as pessoas que, sem você perceber, ficaram esquecidas. parece cruel, mas crueldade mesmo é acordar todo dia com a esperança de regar um vaso com sementes secas, sem possibilidade alguma de vida, e carregar o peso de ter que salvar sozinho relações que já estão mortas.