aprendizado

foto // anna f. horta

acabei percebendo que colher frutos é uma tarefa que exige calma e vontade. sem pressa…
depois de contornar o pé, percebi mais duas acerolas escondidas, em um galho bem alto, perto de onde eu havia começado. fui então para uma outra posição para conseguir retirá-las e, chegando lá, onde eu passava já pela segunda vez, pude perceber mais algumas que da primeira vez não enxerguei. então repeti esse processo de voltar sempre e olhar diferente. reviver, olhar de novo enquanto o sol estava escondido numa nuvem. fiz isso várias vezes – sempre funcionava e isso fez com que a colheita demorasse mais, mas fez com que o suco ficasse mais saboroso.

se eu tivesse olhado superficialmente, teria levado apenas o que merecia levar um olhar apressado.
com calma, com tempo, os frutos amadurecem. e aparecem naturalmente, como se fosse óbvio o lugar em que estão, desde o começo.

  

grave

E exigimos o eterno 
do perecível,
loucos.
Caio Fernando Abreu

Passou numa calçada cheia de flores rosas e pensou: – podia ter umas margaridas aqui. Depois pensou: – ia pegar uma e guardar, até secar. Depois pensou: margaridas são minhas flores favoritas. Depois: – vou plantar margaridas no canteiro lá de fora. E depois: – se alguém como eu passar, vai arrancar, porque eu arrancaria; porque são lindas e eu quero pra mim. Com um ar mais grave foi concluindo: arrancamos raízes com uma crueldade que não percebemos, porque estamos muito mais preocupados em pegar aquela coisa pra nós. E matamos flores lindas, só porque são bonitas, porque queremos ter aquela beleza. Mas aquela beleza vai secar poucos dias depois de a flor arrancada. E guardaremos como recordação. E arrancaremos outras flores, mas nunca teremos a beleza de nenhuma delas, porque matamos na ânsia de ter.

juízo final

A fé é uma esperança e uma crença em outro ser, que não é você mesmo. E não há muito mal em se ter fé, em se acreditar em forças desconhecidas, desde que antes tenha-se consciência da própria força e responsabilidade no que quer que queira ou aconteça.
Acredite você em você mesmo e na sua capacidade, antes de acreditar na força de um ser que -se preferir, pode chamar de Deus – vai ter dar tudo que você pedir, desde que pedido com fé.
Saiba que você precisa se esforçar, porque para ter esperança é preciso um esforço danado -e coragem! É talvez uma das coisas mais difíceis – mais ainda do que ter coragem. E também é preciso um esforço  para a frustração. É preciso um esforço pra lidar com tudo isso sabendo-se responsável por isso, antes de qualquer outra intervenção.
Você escolhe o que fazer da sua vida hoje. Não interessa amanhã, você escolhe o hoje, você toma as decisões e a medida que as coisas e a natureza vão acontecendo, vai tomando outras, mas a escolha de como reagir é sempre sua.  E amanhã vai ser outro hoje também. Então escolha seus “hojes” e se houver um destino final -que seja!-, isso não deveria fazer a menor diferença, porque a vida é hoje e todo mundo deveria vivê-la da melhor maneira possível independente do destino final (se é que ele existe).

Por que não acreditar que um trevo de três folhas pode dar sorte?



sempre

Sentia necessidade de falar para alguém, mas sempre que havia um destinatário, involuntariamente as palavras se reorganizavam e aquilo que queria dizer, se perdia. Precisava escrever para alguém. Precisava também escrever em primeira pessoa, mas se o fizesse, aí mesmo é que o importante se perdia. 
Tinha medo da superexposição que era escrever “eu”. Quase nunca escrevia. Quando era ela, dizia muito mais do que seu eu. Seja ela quem fosse: uma saudade, uma dor, uma alegria. Uma pessoa qualquer. É difícil. Mesmo que ela não fosse eu, de fato, representava muito mais. E às vezes ela não representava nada. Esse mistério era o prazer, penso que também para quem lia. Para ela (mim), era a segurança de se esconder atrás de um pronome. 
Ela podia fazer tudo. Eu não. Podia dizer tudo, porque seria, para todos os efeitos, apenas uma descrição de algo que uma terceira pessoa viveu. Mas ela não era tão forte quanto eu, porque ela era distante. Mesmo partindo de dentro, era distante.

Precisava aprender a lidar com isso, porque o que precisa ser dito ninguém diz, nem ela, nem eu – nem mesmo pra mim. Porque eu mesma sou uma terceira pessoa quando leio o que acabou de ser escrito – então sempre vai haver uma terceira pessoa.

ilusões cotidianas

A: Moça estilosa, você tem um minutinho pra mim?
B: Não posso, tenho ônibus com horário marcado.
Ele acreditou? Não sei. Mas se conformou e com um sorriso que me pareceu bem verdadeiro, agradeceu e ficou pra trás. É isso que fazemos sempre: jogamos pequenas mentiras constantemente ao léu para qualquer pessoa iludida ou sem opção acreditar.
Nós mentimos muito para oferecer uma realidade mais confortável para algumas pessoas, mesmo que isso nem chegue a fazer diferença para elas. Muitas vezes para nos enganar, convencendo alguém do que queremos na verdade ser convencidos.
Na maioria das vezes quem recebe a mentira sabe que trata-se de uma mentira, mas ela é passada de uma forma tão preocupada em parecer verdade, que soa sincera. Seria tão mais fácil dizer “tenho um minuto, mas não quero dá-lo a você”, mas nós não podemos ser sinceros sem parecermos grosseiros. E como eu poderia parecer grosseira com alguém que me agradou? É apenas a verdade, só deve-se respeitá-la, mas não. Pra quê floreá-la? Para que as coisas não pareçam tão ruins?
E nós, quando recebemos essa mentira tão sorridente, ou a transformamos automaticamente em verdade, ou fingimos acreditar (já acreditando mesmo). De qualquer forma, as duas posturas são de conformação. E nesses casos, não sei, acho que não se deve insistir, para não estragar o clima das coisas. Se o rapaz tivesse insistido, teria me irritado e ele ficaria também irritado, tenho certeza. Acho que algumas mentiras são tão ingênuas que merecem, sem que haja nenhum desgaste, ser respeitadas, até.
Às vezes acreditamos por pura teimosia, só pra quando a desilusão vier a gente poder dizer pra si mesmo: “- Mas eu sabia desde o início que não devia me iludir.”. 
Como somos idiotas de achar que isso funciona; de achar que acreditar em mentiras bem vestidas nos livra de alguma coisa. 
Mas… talvez funcione, viu? 

cumplicidade

Para ler ouvindo A ordem das árvores – Tulipa Ruiz 

Tenho pensando muito em passarinhos esses dias, principalmente porque não tenho visto muitas flores, mas tenho ouvido muitos pássaros.

Hoje estou com a sensação de que sonhei com pintinhos, mas acho que essa minha memória deles é de uma crônica da Clarice mesmo. Todo dia quando estou chegando no trabalho ouço vários, mas um canto me chamou a atenção e me fez mergulhar numa profunda noostalgia. Era um canarinho que cantava igualzinho a um que tinha lá em casa, quando eu era pequena: o Titil.
Eu gostava de ouvir música com ele, porque achava que ele dançava comigo. Achava que podia controlá-lo de alguma forma. Então, desse tamanho e já sabendo da contagem de dança, contava “cinco, seis, sete e oito” e acenava para onde ele deveria ir ao meu sinal e no momento da música. Ele quase sempre ia. E eu, na inocência e pensamento mais puro que podia, no meus 7/8 anos, acreditava que eu e ele estávamos em sintonia. E por acreditar, estávamos mesmo. Lembro como eu e ele nos divertíamos a sós, ouvindo música, com o meu som colorido que só tocava fita cassete. Lembro que o casal de periquitos não era tão empolgado e disciplinado como o canário. Não eram tão meus amigos.
Titil viveu muito, mas muito mais que os periquitos. Eu cresci um pouco antes de ele morrer; sequer senti a perda dele. Talvez a minha mãe nunca tenha entendido (e eu tinha um pouco de vergonha quando ela estava perto – de alguma forma eu sabia que aquela comunicação era atípica). 
E um dia, em alguma idade que já julgava suficiente na época para me dizer mulher, acabei me dando conta de que talvez estivesse sendo um pouco idiota por agir assim. Mas eu não estava. Estava sendo criança. Estava sendo, sobretudo, feliz.

percepção independe de visão

O sol, de uns tempos pra cá, começou a incomodar muito a visão. Experimentei então fechar os olhos enquanto caminhava, voltando do mercado. Incrível a sensação de liberdade que se sente e, bem, não senti medo. Senti uma segurança surreal de caminhar sem saber como seria o próximo passo. Mas eu sabia o que havia no fim daquele percurso reto. Sabia também que eu ia na contramão dos carros, mas que não vinha nenhum carro quando quis experimentar. Só que depois de fechar os olhos, não mais pude prever a vinda de nada, mas segui firme e essa minha capacidade de ir sem ver onde pisaria, mas sabendo, mais ou menos, onde chegaria, significou alguma coisa.
Cerca de cinco passos depois abri os olhos. Como era possível que um mundo tão lindo ficasse tão feio por causa dos nossos olhos injustos?
Olhos ignorantes. Porque os cegos não sabem que uma blusa branca pode ser mais bonita que uma preta, ou vice-versa. Eles não sabem que olho azul pode ser mais bonito que verde, ou o contrário.
Tudo o que sabem, até o que leem, devem ao sentir. E isso, nós que enxergamos nunca vamos ser capazes.